Hope - A esperança nunca morre
Sinopse:
Em 2078, o flagelo a natureza e falta de conscientização por parte da população em proteger o planeta, fizeram que a terra atingisse altos teores de nocividade a vida humana. Muitas anomalias humana, vegetais e animais tornaram o mundo um lugar sombrio e temeroso. Algumas poucas pessoas lembram de como tudo era muito bonito antes da devastação da fontes naturais de beleza e sobrevivência. A única esperança é a descoberta de um planeta com condições semelhantes a nossa atmosfera, mas que se encontra a 25 anos luz de distância. Somente os ricos poderiam custear a viagem e a construção de ambientes habitáveis no planeta chamado "Hope", que quer dizer esperança. A aceleração das fábricas em produzir material necessário para a construção da cidade chamada "New Home", que quer dizer Nova Casa, também acelera a destruição do e todos que continuarem nele . Com a terra condenada e somente os ricos em condições de habitar o novo mundo nasce uma sociedade denominada "Os justiceiros" que prometem fazer justiça com as próprias mãos, a favor dos pobres contra os ricos, mas os constantes casos de corrupção deixam a credibilidade dos justiceiros maculada. É nesse quadro que surge um justiceiro chamado Miguel que enfrenta os ricos, os justiceiros e as vezes até a si próprio para proteger os pobres fadados à morte pela destruição da terra e do caráter humano.
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Hope - A esperança nunca morre
16 de novembro de 2012.
O princípio
"A esperança é a idéia que impulsiona as atitudes transformadoras"
"Mãos ao alto, me passa essa água ou você morre"
Foi última frase que ouvi antes do meu pai morrer tentando preservar a última garrafa d´água que mataria a minha sede e dos meus 2 irmãos mais novos.
Vivemos no Rio de Janeiro - Brasil, o ano é 2050. Eu tinha 5 anos de idade quando isso aconteceu, mas não consigo esquecer essa cena que passa e repassa na minha cabeça desde a hora que acordo, até a hora que vou dormir e as vezes até sonho com isso.
O planeta Terra se tornou em um lugar difícil de se viver, e o petróleo, o dinheiro, o ouro, o dólar, o euro, perderam o seu valor financeiro, o mundo capitalista que conhecemos desmoronou e com ele os grandes impérios baseados nessas moedas. A água potável se tornou tão escassa que as pessoas matam por ela, é a nova moeda mundial. O governo fornece cinco litros de água por semana, mas é pouco, famílias grandes precisam fazer sorteios para saber quem irá sobreviver, pois se dividir com todos, todos irão morrer pela pouca quantidade de água.
Tudo piorou quando descobriram esse tal de planeta "Hope", dizem que ele é muito parecido com a Terra, mas ainda muito selvagem. Expedições foram enviadas até lá, mas as primeiras fracassaram por falta de tecnologia adequada para chegar a 25 anos luz. Você sabe o que é viajar para um lugar, onde na velocidade da luz demoraria 25 anos? Sem dúvida é muito longe. A criogenia, ciência que consiste em congelar as pessoas para suportarem viagens tão longas, ainda está sendo estudada, por isso, as pesquisas para a busca de remédios contra doenças comuns, como gripe por exemplo, pararam e as pessoas estão morrendo com gripes novas, a mais recente é a dos ursos , principalmente depois que começaram a fazer pesquisas com esses animais para saber como o seu organismo funciona durante as longas hibernações, principalmente quando acordam do sono, já que muitos astronautas não acordaram depois de um longo período na criogenia.
A aceleração de produção de fibra de carbono para as estruturas da cidade "New Home", a primeira no planeta Hope, também acelerou a destruição da camada de ozônio que filtra a radiação ultra violeta, provocando um quadro generalizado de câncer de pele, principalmente em crianças que ao se regenerarem com o auxílio de uma nova droga, ficam desfiguras, verdadeiras anomalias humanas.
A poluição conseguiu chegar a níveis tão altos que em cidades ao nível do mar é impossível respirar sem mascaras de oxigênio, já existem fábricas especializadas em estilizar mascaras para lançar novas modas com combinações de vestuário e acessórios.O governo sempre diz que irá controlar, mas as fábricas pagam propinas altíssimas para continuarem trabalhando a todo vapor sem interrupção de fiscalizações de meio ambiente.
O ricos compraram a maior parte das montanhas para construírem seus condomínios familiares, enquanto os pobres vivem, ou tentam viver, nos lugares mais baixos e perto das fábricas. Aliás, eles compram tudo e todos. Mas, o maior investimento deles é a New Home, a zona sul do planeta Hope. A empresa responsável por esse empreendimento é a "Zax", e a sua grande jogada comercial é custear a urbanização do planeta para vender terrenos pelo preço que melhor entender. Existem pessoas que já reservaram casas e apartamentos com grandes quantias em litros de água como sinal, mas estão morrendo e a Zax cada dia fica mais rica e representa cada vez mais os interesses dos abastados. Eles pretendem instituir uma nova ordem mundial, com moeda, língua e política próprias.
O que aconteceu no dia em que meu pai morreu?
Alguns vizinhos que souberam pela televisão o que tinha acontecido, foram até aquele lugar e me encontram agarrado ao corpo do meu pai chorando muito e me levaram para a minha mãe que estava doente. Eles eram muito pobres, mas mesmo assim, dividiram a sua água e comida conosco durante alguns dias, então a minha mãe morreu, e eu e meus irmãos Rafael, com 4 anos, e Gabriel, com 2 anos, fomos separados e adotados por famílias diferentes, já que tínhamos fichas de saúde completa com todas as vacinas sem nenhum histórico de doenças graves. Desde então eu jurei que iria proteger os pobres da tirania dos ricos.
28 anos se passaram, e a Terra resistiu heroicamente a todos os ataques feitos pelo homem em busca da construção de New Home, porém, as reservas naturais ficaram muito prejudicadas e a vida já grita por socorro. A indignação do povo fez surgir o grupo de pessoas denominado "Os Justiceiros" que faziam justiça com as próprias mãos em nome dos pobre. Onde houvesse injustiça sendo feita contra a população os justiceiros entravam em ação e os direitos menos favorecidos eram restituídos. Esse grupo ficou muito famoso pela sua força em aplicar a justiça principalmente contra a Zax. Todos os jovens idealistas queriam fazer parte dessa tropa civil. Eu fui um desses jovens e há 15 anos eu luto pelos ideais de justiça e preservação da natureza, hoje eu treino jovens para servirem nessa luta contra os ricos egoístas a favor dos pobres explorados em trabalhos quase que escravos.
Eu sou um justiceiro, e meu nome é Miguel.
*Qual é o verdadeiro plano da Zax? O que fará Miguel para combater? Do que ele terá que abrir mão? Leia no próximo episódio.
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17 de novembro de 2012.
Os Renegados
"Seja rico ou seja pobre, na morte todos se igualam."
-Você já conseguiu emprego?
-Ainda não.
-Tenho um serviço pra você.
-Qual é?
-Entregador
-Mas o Jackson não preencheu essa vaga ontem?
-Sim, mas ele teve um probleminha na última entrega.
-E não vai voltar?
-Nunca mais.
Os dias são difíceis desde que as fábricas começaram a pagar salários de fome num sistema quase escravo, o bom é eles fornecem a comida, aliás ração, mas muitos trabalham para terem pelo menos o que comer. Mesmo assim as filas ficam lotadas de pessoas famintas, trabalhando somente para comer e levar um pouco para casa. Hoje as fábricas de material para a construção de New home empregam mais de 20.000.000 de pessoas em uma população total de 35.000.000 no mundo. Em cada país é produzido um tipo de material, e como no Brasil o produto mais abundante é a madeira, todos os utensílios que necessitam dessa matéria prima são feitos na fábrica do Rio de Janeiro, esse é um dos motivos do aquecimento global.
Todos os dias os traficantes de mulheres, de drogas e bebidas aliciam jovens sadios e bonitos para o mercado negro de trabalho, que paga mais, mas exige muito mais. Eu mesmo mesmo já enviei muitos desses marginais para a cadeia. O último de ontem, aconteceu bem tarde enquanto fazia ronda com dois novatos a quem eu estava treinando,ele se chamava Jackson, era mais um entregador de bebidas ilegais, extraídas de vegetais alucinógenos. Foi uma pesquisa frustrada para retirar água de vegetais encontrados nos ambientes desérticos, onde no passado havia floresta, elas possuem raízes profundas que conseguem chegar ao que restou dos lençóis freáticos, porém esses lençóis estão contaminados com um alucinógeno mais potente e viciante do que uma droga antiga chamada CRACK.
-Oooo, Miguel.
-Sim chefe.
-Você está fazendo o seu relatório ou escrevendo um livro.
-Desculpe chefe. Eu gosto de esclarecer tudo o que eu faço para não ser mal interpretado pelos meus superiores.
-Tudo bem o "Jorge Amado".
-Desculpe chefe. Quem é esse "Jorge Amado"?
-Hoje? Apenas memórias, ele já morreu há muitos anos. Foi um grande escritor baiano, mas existem 5 clones dele por aí.
-Ah, sim.
-Já fazem 15 anos que você trabalha conosco, e parece que foi ontem que eu o recrutei. Você parecia um pau de vira-tripa de tão magro, mas com uma disciplina invejável. Muitos monitores rejeitariam você, mas eu vi um algo mais em você, uma coisa que normalmente não se encontra nos justiceiros, todos são frios e inconsequentes, matam sem pensar. Você nunca matou ninguém. Por que?
-O senhor já respondeu capitão Zenon, eu não sou frio. Meus pais verdadeiros eram pobres e me ensinaram muito bem sobre humildade e valorização da vida humana, pena que morreram quando eu era criança, e os meus pais adotivos, que já eram idosos, eles foram uns dos poucos ricos de água e humildes de coração que conheci, eles me ensinaram muito sobre a vida, mas eles morreram enquanto eu estava na academia de justiceiros, onde eu aprendi a lutar contra as forças opressoras e resgatar os aliciados por ela, dando-os uma chance de mudar.
-É verdade, já ouvi essa explicação outras vezes, mas sempre me encanta a forma que você fala. Realmente você é diferente.
-Sim capitão, eu absorvi o melhor de cada classe social. Por isso, eu farei o que for necessário para defender os necessitados. Sejam ricos ou pobres.
-Certo Miguel. Então vamos trabalhar. A fábrica da ZAX precisa expandir para o lado leste. Eles precisam de 50 hectares para novos armazéns de utensílios para a New Home, lá do tal planeta. Escalei você porque o local é um velho conhecido seu. É onde a sua ficha diz que você nasceu.
-Mas capitão...
Exitei um pouco porque eu sabia que algumas pessoas que me ajudaram quando eu era criança ainda viviam lá e certamente não teriam outro lugar para ir. Principalmente porque, quando eu entrei na sociedade dos justiceiros foi para ajudar os pobres, mas eles tem se corrompido e estão trabalhando para os ricos inescrupulosos.
-Não tem mais primeiro sargento Miguel. Cumpra as ordens.
-Mas chefe, parece que estamos trabalhando para a ZAX.
-Miguel. (Falou firmemente o capitão Zenon)
-Lembre-se que da última vez que você disse isso e tenente Bastos te deixou na cadeia por 7 dias. Dessa forma estaremos dando uma chance para aquelas pobres pessoas de saírem pacificamente e as estaremos protegendo contra os saqueadores.
-Sim senhor.
Concordei com questionamentos atravessados na garganta, mas um pouco convencido pelo capitão que era uma pessoa boa, mas seus superiores eram de moral duvidosa e eu não concordava com o jeito deles "defenderem" o pobres com violência e falta de respeito, isso só gerava uma rejeição por parte do povo a quem deveríamos de fato proteger.
Uma tropa desconhecida tinha sido destacada para essa missão, desconfiei que algo estranho estava acontecendo. Mas, eu confiava na sociedade dos justiceiros.
-Sargento Miguel.
-Sim tenente Bastos.
-Essa tropa foi treinada por mim. O senhor foi escalado para guiá-los pelas vielas do lado leste, portanto, reserve-se a guiá-los somente.
-Mas tenente ...
Tentei pedir que o tenente me deixasse orientar os soldados para agirem com respeito, mas ele não me ouviu.
-Sargento, obedeça, ou o senhor será preso novamente. (Falou energicamente interrompendo Miguel)
-Sim senhor.
Naquela noite a minha fé na sociedade seria abalada definitivamente.
Quando chegamos ao lado leste, eu mostrei todas as entradas e saídas, que foram bloqueadas imediatamente e um outro sargento que eu não conhecia começou a dar ordens de desapropriação imediata. então perguntei o que eu deveria fazer ele me disse:
-Sargento, as minhas ordens são de ser guiado pelo senhor, só isso. Por mim faça o que quiser, a sua missão já foi cumprida.
-Sim sargento.
Calei-me com a certeza que a minha missão só estava começando. Então segui em direção aos amigos dos meus pais verdadeiros para auxiliá-los. quando cheguei lá um soldado estava dando ordens ofensivas e apontando a arma para meus amigos, agora renegados.
-Vocês são surdos. Saiam agora daqui, peguem somente o essencial.
-Mas senhor, não temos para onde ir, nem como levar os nossos pertences. Nós moramos aqui há anos e nossas raízes já estão nesse lugar.
-Isso não é problema meu, vá plantar suas raízes em outro lugar.
-Senhor, pelo amor de Deus, se formos para qualquer outro lugar teremos que caminhar horas , talvez dias para pegarmos os nosso suprimento de água, assim vamos morrer.
-Já disse, isso não é problema meu, e se você morrer será melhor, pois irá sobrar mais água para mim.
-Entre morrer hoje ou amanhã prefiro morrer hoje.
-Se é assim que vocês querem. (Disse isso apontando a arma e já puxando o gatilho)
Um tiro foi ouvido, mas o justiceiro caiu no chão morto.
Quem atirou? Por que?
Vamos saber no próximo episódio.
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18 de novembro de 2012
A revelação
"Quem procura a verdade precisa estar preparado para ela."
-Está tudo mundo bem?
Perguntei, com as mãos tremendo e um peso muito grande por ter tirado uma vida. Afinal, eu nunca tinha feito isso. Mas, a situação implorava por uma decisão rápida e eu não poderia deixar que inocentes morressem pelas mãos de pessoas impiedosas.
Retirei o capacete, e antes que eu dissesse quem eu era, eles me reconheceram e me agradeceram dizendo:
-Miguel é você. Finalmente alguém que poderá nos defender. Agora sim vale a pena viver. Eu farei qualquer esforço para continuar vivendo e ver o povo liberto do poder da ZAX e dos justiceiros sanguinários.
-Vamos, peguem o que puderem e vão embora. eu cuido de tudo.
Nesse momento alguns justiceiros vieram para ver o que estava acontecendo, pois tinham ouvido um tiro, mas eu disse que ali estava tudo bem e o barulho tinha vindo do outro lado.
Depois que eles saíram, olhei para os lados, como não vinha ninguém, pus o corpo do justiceiro que a bala atravessara e matara em uma casa abandonada. Segui em frente e fui para casa, já que o meu trabalho era somente guiar a tropa.
Quando cheguei, corri para banheiro e vomitei, pois nunca tinha passado por esta situação. Eu não sabia o que era matar alguém, principalmente um colega de farda. Uma depressão muito grande tomou conta de mim, por isso, não consegui dormir aquela noite, pensando naquele homem. Foi uma dor que eu nunca tinha sentido antes. O que me consolava era o sentimento de gratidão que aquelas pessoas que no passado me ajudaram, expressaram por ter salvo as suas vidas, principalmente quando me reconheceram. Mas confesso que fiquei intrigado com a afirmação de que eu poderia libertá-los da ZAX e dos justiceiros sanguinários.
O que será que ela quis dizer? Será que tem haver com a morte dos meus pais verdadeiros? Será que eu posso libertá-los? Será que este mundo condenado tem conserto? Mas por que tanta pergunta? Eu sou apenas um justiceiro cumprindo ordens.
Quer saber, eu cometi um erro e devo pagar pelo meu erro. Amanhã irei a sala do meu chefe e me entregarei. Mas ainda não conseguia dormir, algo martelava na minha cabeça, eram as palavras daquela família, que precisava de alguém para depositar a confiança, pois já não tinham fé em mais nada. Iguais a eles existem muitos, que naquela noite foram obrigados a deixar suas casas que moravam há anos para qualquer outro lugar. Mas, o que fazer? Eu sabia que devia me entregar.
Ao amanhecer, fui para a associação dos justiceiros e devido a morte do colega em serviço, aquele lugar estava uma loucura, por isso, quando cheguei ninguém me viu, então entrei para falar com o chefe e me entregar. A porta estava entreaberta e quando eu ia bater ouvi que estavam conversando então resolvi esperar, mas inevitavelmente ouvi a conversa do capitão Zenon com o tenente Bastos, e diziam:
-Capitão, esta operação devia rápida e sem baixas. O que aconteceu? A ZAX está pagando muito caro para limparmos a área, e o senhor me apronta isso. Eu não me importo nem um pouco com esses pobres doentes. Mais cedo ou mais tarde eles irão morrer mesmo, então se eu puder ajudar ficarei muito feliz.
_Tenente, devo lembrar-lhe que o senhor treinou os homens, por tanto são seus soldados. Além do mais, sou pago sim para guardar principalmente os pobres.
_Capitão, e eu devo lembrar-lhe que a água vem do governo, mas o governo recebe a água da ZAX, e nesse caso como eu represento a ZAX então, eeeeeeu maaaaaaaandooooooo aquiiiiiiiiiii. ENTENDEU CAPITÃO.
-Sim senhor tenente.
Respondeu o capitão cabisbaixo e com medo de perder o emprego que alimentava a sua família.
Enquanto eu ouvia tudo, uma revolta tomou conta do meu coração e tudo pelo qual lutava foi questionado naquele momento. No meu juramento eu me propunha a defender os fracos e oprimidos e não seria uma cúpula corrupta que iria mudar as minhas convicções que eu tinha aprendido com os meus pais e amigos.
Quando eles saíram, olharam um para o outro e perguntaram se estava tudo bem, só para saber se eu tinha ouvido alguma coisa, mas eu disse que que tinha acabado de chegar e estava indo bater na porta quando eles saíram. Perguntei se estavam precisando de algo, pois estava uma confusão danada lá fora, eles disseram que não, mas o capitão saiu arrasado e esfregando o peito.
-Tudo bem capitão? (Perguntei)
-Sim sargento, tudo bem. Só esse meu coração, ele ainda vai me matar. (Falou batendo nas minhas costas)
Depois disso, comecei a pesquisar sobre os projetos da ZAX nos arquivos confidenciais da Associação, e descobri que ela já financiava há muito tempo os justiceiros e outros projetos entrariam em vigor naqueles dias eram diabólicos.
Eu precisava fazer algo. Mas oquê? Eu estava só nessa luta e não podia enfrentar todos sozinho.
Será que o sargento Miguel está sozinho nessa? Será que ele irá fazer algo ou continuará vivendo sua vida?
Leia o próximo episódio.
19 de novembro de 2012
A fúria dos justiceiros
"A raiva é uma arma fatal, que mata primeiro quem a sente."
-Eu quero todo mundo na rua procurando o assassino do soldado Viegas. E não voltem até encontrá-lo e fazê-lo pagar.
-Mas tenente, como ele irá pagar. Perguntou on soldado novato.
-De uma forma que ele nunca mais mate ninguém. Falou com um sorriso sarcástico no rosto.
-Sim senhor tenente!
Em seguida saíram em diligência para encontrar o assassino do justiceiro morto sem serviço. Há anos que nenhum justiceiro morre na execução do serviço e essa atitude incendiou o ego da sociedade, afinal eles eram como deuses para o povo. Casas foram invadidas a procura de armas semelhantes à que foi utilizada para o assassinato e suspeitos que estavam na cidade naquele dia. Muitos foram torturados e alguns morreram por não resistirem aos ferimentos causados pelos supostos mantenedores da justiça e da ordem social. A medida que o massacre avançava os cidadãos criavam uma restrição maior quanto aos seus algozes fardados com seus distintivos que garantiam o poder sem direito a resistência.
-Antonio Jose da Costa, saia para fora agora! Diziam os justiceiros do lado de fora do barraco. Fortemente armados, obrigavam os suspeitos saírem e mesmo sem terem certeza se era a pessoa certa eles espancavam para levar sem resistência. Dentro da van blindada faziam o interrogatório para apurar os fatos e descobrirem se o suspeito deveria ser preso ou não. Quando não saíam, arrombavam a porta e espancavam quem estivesse na frente, mulheres, crianças e idosos, para capturar o suposto assassino do colega. A noite já estava chegando e eles continuavam sem parar.
-Gabriel da Silva, saia para fora agora!
Desconfiado ele entreabriu a porta que possuía uma corrente de segurança.
-Pois não senhores.
A porta foi aberta totalmente com um chute tão forte que quase quebrou-a ao meio. O choque arremessou Gabriel longe, quebrando-lhe o nariz e machucando sua esposa que protegia seu filho de 6 meses de idade.
Com um questionamento atordoado ele perguntou:
-O que é isso, o que vocês querem comigo?
-Queremos que responda algumas perguntas agora. Vamos para a van imediatamente. Falaram isso arrastando-o para fora como um criminoso perigoso.
-Por favor não machuquem minha família. Eu tenho esposa e dois filhos, um deles tem seis meses apenas e o outro tem 10 anos.
Chegando na van fizeram-lhe algumas perguntas sobre a noite anterior.
-Gabriel Silva, você estava na favela ontem a noite?
-Sim estava.
-Você foi abordado por algum justiceiro?
-Não senhor.
Ele estava falando a verdade, pois a favela era muito grande e não teria dado tempo para alcançarem todas as famílias em uma noite apenas.
-Diga a verdade!!! Disseram isso dando-lhe um soco no nariz já quebrado, fazendo com que sangrasse mais ainda.
-Não senhor, eu não fui abordado ontem, e se fosse eu não mentiria, certamente eu não estaria mais aqui para passar por essa humilhação.
-Seu abusado. Nós vamos refrescar sua memória. Peguem a esposa dele agora.
Voltaram minutos depois com a esposa e deixaram a criança com o irmão mais velho em casa.
-Diga a verdade. Se você não se incomoda com sua vida talvez se incomode com a sua mulher. Disseram isso com uma faca de caça no rosto de sua mulher.Vamos, diga se foi você que matou o soldado ontem a noite, senão vamos cortar esse lindo rosto pedaço por pedaço até não ter mais nada para cortar. Gritaram de forma furiosa com o honesto homem que não mediria esforços para proteger a sua família.
Em uma atitude destemida ele pulou sobre o homem que estava ameaçando a sua esposa e disse:
-Até agora ele não tinha matado ninguém, mas encostarem na minha esposa eu mato quem quer que seja, até um justiceiro.
Em seguida parou de falar, pois ficou sem sentidos pela coronhada recebida do tenente Bastos que estava supervisionando a operação. Foi levado para a Associação inconsciente para responder a outras perguntas. Sua esposa ficou em casa com os filhos chorando muito, crendo que seu marido não retornaria para casa.
Chegando na associação ele foi levado para a sala de torturas onde tiraram-lhe a roupa e onde fizeram-no sofrer até furarem-lhe um dos olhos. Concluindo que não tinha sido ele quem matou o colega, mantiveram-no preso por causa do desacato a autoridade. No dia seguinte, eu estava passando pela carceragem quando vi uma pessoa muito familiar que despertou a minha curiosidade. Mesmo estando muito machucado perguntei:
-Ei você aí. Qual o seu nome? Ei você, seu surdo. Diga quem é você. Ele apenas gemia
Sem resposta resolvi abrir a porta da cela para verificar.Quando virei o seu corpo me estremeci de acima a baixo, já com lágrimas nos olhos eu perguntei:
-Por favor diga-me seu nome.
Ele resmungou algo parecido com Gabriel e apenas com a forma de falar pude perceber que era o meu irmão que estava ali quase morto e já cego de um olho. Não perdi tempo e chamei o médico da corporação e ordenei que ele fosse levado para enfermaria imediatamente, sem falar que era o meu irmão.
A partir daquele momento provei o gosto amargo do ódio que tomou conta do meu corpo por inteiro levando-me a querer descobrir quem tinha feito isso com o meu irmão e porque. Pela primeira vez na vida eu senti vontade de ajudar alguém a ponto de dar a minha vida se necessário fosse.
Ele já percebeu que precisa fazer algo.Mas por onde começar? Por quem procurar?
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20 de novembro de 2012
"O devastador poder dos ricos"
"Quanto mais se tem mais se busca para manter o que se ganhou."
Depois de ver o meu irmão naquele estado, quase morto, tive a certeza de que precisava fazer algo imediatamente. Então decidi começar investigar causa de todo mau: os ricos inescrupulosos que estavam destruindo a terra para satisfazer as suas necessidades de sobrevivência e superioridade sobre o restante da humanidade. Os arquivos encontrados na associação me dera alguma ideia de onde começar, sem demora, e usando o prestígio de ser sargento justiceiro, marquei uma entrevista com o presidente da ZAX. No dia e hora marcados lá eu estava para o interrogatório, isto é, para a entrevista.
-Bom dia, eu tenho uma entrevista com o sr. presidente.
-Sim. O senhor é o sargento Miguel eu suponho?
-Sim, sou eu.
-Por favor aguarde um pouco, já irei chamá-lo.
-Obrigado. Esperou um pouco, e quando já estava impaciente ouviu a secretária chamá-lo pelo nome.
-Sargento Miguel. O senhor já pode entrar.
-Obrigado. Falei ansioso para entrar e fazer as suas perguntas.
Entrando na sala havia um homem sentado na cadeira de costas para mim, o que gerou muita curiosidade, já que há muito tempo não viam o presidente exercendo as suas funções. Existia até o boato de que ele estava louco. Todos esses pensamentos rodeavam a minha cabeça antes de vê-lo e falar-lhe.
-Senhor presidente.
O homem virou a cadeira lentamente e pude vê-lo, o que me causou certo susto porque esperava um homem velho e carrancudo, mas era um homem jovem, razoavelmente simpático e sorridente.
-Bom dia senhor Miguel.
-Bom dia senhor presidente.
-Desculpe sargento, mas o senhor Silva não pôde atendê-lo hoje. Ele teve um compromisso urgente referente a construção da New home hoje, e em decorrência disso não pôde atendê-lo, ele pede desculpas.
Eu sou o senhor Bournier, relações públicas do Sr. Silva. Por favor, não dê ouvidos ao que dizem por aí, digo isso por causa dos boatos de que o sr. Silva está louco, isso não é verdade. Ele está muito atarefado com a construção da New Home, e os investidores são muito exigentes. Mas, também o presidente não costuma falar muito, principalmente quando o assunto é seu passado, isso deixa os repórteres malucos e sempre querem achar um motivo para denegrir a imagem desse homem batalhador e que sustenta essa empresa nas costas.
-Você é um grande admirador do seu chefe não é?
-Sim sou, e não escondo isso, aprendi muito com ele, principalmente com sua história de vida. Mas enfim, não viemos aqui para falar sobre o sr. Silva , mas da ZAX, embora não seja possível falar de um sem mencionar o outro. Qual o seu objetivo com essa entrevista sr. Miguel?
-Nada demais. O senhor sabe que eu sou sargento justiceiro e há alguns dias atrás nós perdemos um colega na desapropriação em uma das favelas da ala leste.
-Sim eu sei, e devo dizer que nós contribuímos para o fundo dos justiceiros mortos em trabalho.
-Mas senhor Bournier, eu não estou aqui para isso. Estou aqui pelos meus amigos vivos que estão lá botando a cara deles na reta. Eu gostaria de saber o que a ZAX realmente pretende com essa desocupação.
-Sargento, nós já declaramos que precisamos de novos armazéns para guardar produtos manufaturados por nossa fábrica. Esse é o motivo.
-Senhor, eu não sou burro e sei que vocês não investiriam tanto dinheiro na associação se não tivessem um retorno maior garantido. E vou dizer mais, pessoas inocentes estão morrendo por esse motivo, qualquer que seja. E eu não irei descansar até descobrir o que está acontecendo. Ah! Outra coisa na próxima vez eu quero falar com o presidente.
-Entendo a sua preocupação e cuidarei para que o senhor tenha um encontro muito especial em breve.
-Eu acho bom. Bom dia sr. Bournier.
-Bom dia sargento.
Saí daquela sala furioso por ter sido tratado como um burro e por não ter falado com o presidente, que certamente teria as respostas que eu precisava, mas certamente a próxima reunião seria com o sr. Silva, afinal, ele disse que eu teria um encontro especial.
Quando saí ouvi a secretária falando com sr. relações públicas.
-Senhor, o presidente do conselho administrativo está na linha 2.
-Só me falta essa, aqueles ricos mimados querendo bajulação Tudo bem, pode passar. Bom dia senhores. Em que posso ajudar? Vocês sabem que eu sou todo de vocês.
-Certo, eu quero seu fígado agora.
-O que senhor!!!!!!
-Calma, pare com essa bajulação barata, nós pagamos muito bem para você ficar agindo assim. Escute.A ala leste já foi limpa para a construção no novo laboratório de criação de clones para transplante de órgãos humanos?
-Sim senhor, mas...
-Mas o que seu verme. Eu sei que as coisas não estão indo bem. Nós estamos morrendo e dessa forma não poderemos viver para conhecer o planeta Hope. Se não der tempo teremos que tomar os órgãos doentes desses trapos humanos que vivem nas favelas e eu não estou disposto a isso. Acelere esse processo, água é o que não falta, temos muito para comprar o que for necessário, até você. Aliás eu gosto muito do seu braço direito.
-O que senhor!!!!!!
-Estou brincando seu medíocre. Dê mais água para os justiceiros acelerarem o processo, não temos uma vida inteira.
-Sim senhor. Farei isso. E quanto ao meu braço, é brincadeira mesmo né?
-Han. Faça o que eu te disse e tudo ficará bem.
-Sim senhor, sim senhor.
Com a pulga atrás da orelha o sr. Bournier pediu para a secretária ligar para o tenente Bastos.
-Boa tarde tenente.
-Boa tarde sr. Bournier. Que prazer ouvir a sua voz.
-Pare com essa bajulação barata, nós pagamos muito bem para você ficar agindo assim. Escute, eu tive uma visita muito desagradável hoje, um tal de sargento Miguel veio até aqui para fazer algumas perguntas,das quais eu já dei as respostas para o senhor. Escute bem, a ZAX cuida muito bem daqueles que lhe servem, mas cuida melhor ainda daqueles que não servem. Entendeu senhor tenente? Cuide desse sargento o mais rápido possível. ENTENDEU???
-Sim senhor, sim senhor
Depois de desligar o telefone o tenente bastos mandou alguns capangas darem cabo da minha vida naquela noite mesmo.
Será que o sargento vai conseguir sair dessa vivo? Como ele fará para se livrar da morte certa?
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21 de novembro de 2012
"Nunca esqueça um amigo"
Logo após a conversa com a ZAX, o tenente chamou seus capangas de confiança e lhes deu a ordem.
-Eu quero os soldados Max e Bruno e o cabo Severo aqui agora. Gritou Bastos da sua sala com os olhos vermelhos de raiva. Esse incherido está querendo me queimar, então ele verá agora quem é que sabe queimar melhor. Eu quero que vocês sigam o sargento Miguel agora mesmo, e quando ele estiver em um lugar sem testemunhas apaguem ele e ocultem o cadáver. O que vocês ainda estão fazendo aqui? Vão, vão, vão. Esses idiotas, sós os mantenho porque são tão burros que não questionam nada.
Quando estavam saindo da associação, o capitão Zenon achou esquisito a pressa dos soldados e do cabo que decidiu perguntar o que estava acontecendo, quando o soldado Max começou a falar.
-Boa tarde capitão. Nós estamos agora indo seguir o sargento Mig...
Ele foi interrompido pelo cabo que completou.
-O sargento Migrenbauer até a entrega do sashimi alemão para um russo chamado Joaquim Manoel.
-Desconfiado, o capitão não acreditou na estória sem pé nem cabeça.
Saíram apressados, e pelo GPS do aparelho telefônico acharam o sinal do meu aparelho telefônico, eu estava nos arredores da favela da ala leste avisando às famílias pobres para não ficarem por alí, pois os justiceiros iriam interrogar e até matar para saber quem teria matado o colega de farda.
Quando eu cheguei a algumas casas abandonadas e ouvi alguém me chamando
-Miguel, chegou a sua vez. Quem mandou procurar cabelo em oco.
-é em ovo, seu burro.
-Ah. O que importa ele vai morrer mesmo, não vai contar para ninguém mesmo, hahahahahahaha.
E ouviu-se um tiro que pegou de raspão no meu braço, na altura do coração. Imediatamente me joguei no chão e me abriguei atrás de uma varanda com uma pequena mureta que só me escondia se eu estivesse deitado, enquanto eles falavam:
-Miguelzinho bota a cabecinha para fora para eu brincar de tiro ao alvo. Vai ser rápido e sem dor.
Eu estava encurralado naquela casa e sem ninguém por perto para me ajudar, por um instante eu pensei em obedecê-lo, mas eu ainda tinha munição e decidi acabar com tudo o que tinha antes de me entregar àqueles covardes.
- Quem está aí? É o Max?
-Sim sou eu, mas como você sabe?
-Ninguém é tão burro assim: "cabelo em oco" né?
-Seu desgraçado você vai morrer agora
Então ele saiu de trás do muro em que se abrigava atirando, mas não contou quantas balas possuía o seu revolver calibre 40, e quando deflagou a última bala então eu levantei rapidamente e antes que os outros atirassem acertei-lhe um tiro no meio da testa e me joguei no chão novamente. Os outros desesperados saíram dos seus abrigos atirando, nesse momento pensei que tudo estava perdido, então me levantei fechei os olhos e comecei a atirar, quando as balas da minha pistola acabaram os dois capangas estavam mortos no chão há alguns metros de mim. Eu não estava acreditando naquela visão que eu estava tendo, foi quando uma cabeça se levantou na casa ao lado. A minha visão estava turva, ordenei que levanta-se as mãos senão eu atiraria, mas por um instante eu me esquecera que estava sem balas, apenas apontei a arma com medo que tivesse que atirar, pois seria impossível. Mas para a minha salvação era o capitão Zenon. Até hoje eu não sei quem matou o cabo Severo e o soldado Bruno, se foi eu ou o capitão, ou os dois. Ao se aproximar eu só consegui agradecer com um obrigado e desmaiei. Tinham acertado um tiro na minha barriga, e a essa altura eu tinha perdido muito sangue. O capitão, colocando em risco a sua própria vida, me levou para a sua casa e chamou um médico, amigo particular da sua família para cuidar de mim. Logo que recuperei os sentidos eu perguntei como ele soube o que estava acontecendo ali, então ele me contou:
- Assim que os capangas do tenente saíram eu percebi que algo errado estava acontecendo. Achei que seria melhor seguí-los para que outros justiceiros honestos não sofressem nas mãos de corruptos como eles. o tiroteio e os gritos chamaram a minha atenção, então me posicionei entre você e eles de forma que ninguém me visse, e logo que você ficou de pé e começou a atirar vi que não teria outra alternativa senão atirar também, não sei dizer se acertei alguém, mas gastei toda minha munição.
Para a minha sorte a bala atravessou meu corpo e não atingiu nenhum órgão vital. Durante dias ele cuidou de mim sem ninguém saber
-Obrigado meu amigo. Se não fosse você eu teria morrido naquele lugar. Devo-lhe a minha vida e a minha gratidão pelo risco que continua correndo por minha causa.
-Não se preocupe, por sua causa eu tenho orgulho de ser um justiceiro.
A amizade verdadeira salvou a vida do sargento Miguel. Mas o que acontecerá quando descobrirem que ele está vivo? Quem irá denunciá-lo?
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22 de novembro de 2012
" O dinheiro compra tudo"
Depois de dois dias na casa do meu amigo, o clima começou a ficar frio entre eu e sra. Helga, esposa do capitão Zenon. Ela havia cuidado de mim durante esse período, mas eu tinha flagrado algumas conversas onde ela reclamava com o seu marido, acusando-o de estar acobertando um criminoso, e que isso não seria bom para a sua família. Ela sempre dizia que não tinha filhos porque não tinha dinheiro para pagar o tratamento e isso a deixava muito triste. "Isso não é justo", dizia ela discutindo com o marido. Eu não queria trazer problemas para eles, então decidi ir embora sem que eles soubessem. Dormi mal aquela noite. pensando em tudo que tinha acontecido até agora e na vida que eu tinha antes. Por alguns momentos eu pensei em desistir, livrar o meu irmão recém encontrado e ir morar com ele, afinal ele era tudo o que eu tinha na vida, e também porque ele possuía uma família e precisava sustentá-la, mas e os ferimentos causados pelos justiceiros certamente lhe trariam muita dificuldade na lida do dia-a-dia. Contudo, foi só um dos pensamentos que tive naquela noite. O grito das pessoas violentadas pelos homens que as deveriam proteger, ecoavam na minha cabeça sem parar. Ainda era madrugada quando acabei de arrumar as minhas coisas para ir embora, quando ouvi um barulho na sala, e antes que eu pudesse averiguar, a porta foi arrombada por homens tão fortes que não precisavam fazer força, bastava encostar o corpo na porta que ela viria a baixo, imediatamente uma multidão de justiceiros invadiu o quarto ordenando:
-Deite-se no chão, agora.
-Tudo bem, eu não estou armado e estou ferido.
Mesmo assim fui jogado no chão com tanta força que meu ferimento começou a sangrar. Fui levado para a sala onde estavam sentados sra. Helga e o capitão Zenon sob a guarda de homens mal encarados. Sem entender como eles tinham descoberto meu paradeiro, perguntei :
-O que está acontecendo aqui?
-Enquanto a multidão abriu alas para a chegada de alguém, eu olhava para o rosto do capitão e sua esposa com a imensa tristeza de ter provocado aquilo. A sra. Helga de cabeça baixa e o capitão sereno, não diziam nada. Decidi assim quebrar o silêncio.
-Eu peço perdão por tudo isso.
Helga levantou o rosto lentamente, olhou nos meus olhos e disse:
-Não precisa dizer mais nada, você não trouxe problema nenhum, pelo contrário ao denunciar você, eu ganhei o direito de fazer a cirurgia que me possibilitará engravidar e concretizar o meu sonho.
-Cale a boca sua ingênua medíocre, não está vendo que nenhum de nós sairá daqui vivo. Falou o Capitão com sua voz firme, porém sem gritar.
Continuou a mulher a falar com ar de superioridade.
-No dia em que o Sargento Miguel apareceu aqui ferido, e você pediu ao doutor que viesse até aqui atendê-lo, percebi que algo estava errado. Enquanto vocês estavam no quarto eu recebi uma ligação do tenente Bastos perguntando por você, então disse para ele o que estava acontecendo aqui. Ele me pediu para que o mantivesse informado que ele me recompensaria com a cirurgia que eu tanto queria, portanto Zenon, fique calmo eles só querem o Sargento Miguel.
-Filha mesmo que ele fosse um criminoso,mas não é, ele mereceria uma chance de se defender, coisa que esses homens não farão. Você não tinha esse direito.
-Se eu fosse depender de você para ter um filho eu continuaria sem filhos para sempre.
-Se nós não tivemos filhos foi porque Deus não quis.
-Não importa a vontade de Deus, importa a minha vontade.
-A sua vontade ainda vai nos matar mulher.
Nesse momento chegou o tenente Bastos com um sorriso de batalha vencida no rosto dizendo:
-Ora, ora, ora. Enfim a dupla dinâmica. (palmas) Que show vocês aprontaram hein. Só me digam uma coisa foram vocês que mataram os soldados Viegas, Max e Bruno e o cabo Severo?
Tentando livrar o capitão de qualquer culpa eu disse:
-O capitão não tem culpa alguma, eu matei a todos.
- Muito bem. Eu gosto da verdade, mas infelizmente eu não posso matá-lo agora vingando esses homens, alguém quer falar com você na ZAX, e deve ser sério porque a ordem veio de cima. Então vamos embora. Homens, levem o sargento com cuidado, tenho ordens para levá-lo em segurança, acho que você mexeu com pessoas perigosas que querem acabar com você pessoalmente. Vamos.
-Espere tenente. E a minha recompensa? Dizia a sra. Helga.
- Ah sim. Soldado, dê a recompensa da mulher.
Um soldado com jeito de carrasco medieval sacou o revolver calibre 40 rapidamente e atirou na cabeça da gananciosa que permaneceu sentada depois de morta. Assustado, olhei para o capitão que estava com um olhar de dever cumprido, e fechando os olhos lentamente esperava o disparo da arma. Também fechei os olhos e apenas ouvi o disparo. Logo fui puxado por um soldado em direção a uma van blindada, típica dos justiceiros.
Eu não sabia o que me aconteceria ,mas estava certo que, daquele ponto, eu não poderia mais voltar atrás. As mortes do meu pai e do meu grande amigo capitão Zenon não poderiam ser em vão.
O que a ZAX quer com o sargento Miguel? Será que o próprio presidente quer executá-lo?
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25 de novembro de 2012
"A terra reclama e a humanidade pede socorro"
Acordei num sábado pela manhã e senti um pouco de falta de ar, pensei que fosse por causa do ferimento, mas quando saí de casa percebi, que algumas flores estavam murchas e o cheiro de enxofre enchia as minhas narinas dificultando a respiração. Liguei o rádio para ouvir as notícias matinais e um alerta estava sendo emitido, dizendo:
-Atenção Senhoras e senhores. Devido a baixa umidade do ar e em virtude das contínuas erupções vulcânicas, a taxa de dióxido de enxofre está muito alta. O uso de máscaras é aconselhado para quem sair à rua. Mudas de de cactus para o auxílio na purificação do ar estão a disposição da população na unidade de preservação da vida ZAX, na ala oeste. Somente uma planta para cada família.
Por sorte eu tinha guardado a minha máscara contra gases letais e pude sair a rua para ver o que estava acontecendo sem ser reconhecido. Deixei meu irmão em casa com sua família, pois seu filho mais novo está com dificuldade de respirar, temo pela sua vida, já que me apeguei muito nesses dias que passamos juntos, mas meu irmão Gabriel é enfermeiro e sabe o que fazer nessas ocasiões. Logo que saí, vi animais de grande porte, como cavalos e vacas, caídos no pasto quase à morte por não conseguirem respirar. As pequenas plantações de uso doméstico, ressequidas pela baixa umidade demostravam uma paisagem árida e desértica. As coisas não estavam boas e eu acreditava que o fim estava muito próximo.
A medida que eu andava pelas ruas a visão do caos me oprimia o coração. eu não conseguia conter as lágrimas quando mães impotentes choravam a perda dos seus filhos recém nascidos diante do assassino impiedoso que é o ar contaminado. Elas batiam no peito e diziam:
-Porque não eu? Porque não eu?
E choravam sem parar por causada dor de perder a sua cria, a garantia de um mundo melhor.
Os justiceiros estavam nas ruas para recolher os corpos e para passar a mensagem gravada pela ZAX que "está tudo bem, não há necessidade de pânico, porque a unidade de preservação da vida está tomando providências".
Grandes torres no passado haviam sido instaladas para vigiarem os quatro cantos da fábrica e andando pela ala oeste pude vê-las, mas essa visão não foi apenas contemplativa, ela foi providencial. Eu tive uma idéia a partir das minhas leituras recentes sobre preservação da vida humana e precisava falar com alguém. Voltei para casa correndo, ou pelo menos eu tentava, pois eu precisava tomar uma providência rápida, senão mais pessoas poderiam morrer. Quando cheguei em casa quase sem ar, transpirando muito e quase desmaiando, meu irmão muito assustado me viu quase desfalecendo e me segurou antes que caísse e me machucasse. Logo que recobrei o fôlego, pedi folha e lápis para explicar o plano para Gabriel. Desenhei e comecei a explicar:
-Irmão, por favor me ouça com atenção porque eu não posso me expor às autoridades já que todos pensam que eu estou morto. Você conhece a torre de vigia da ala oeste.
-Sim conheço, mas ela está desativada há muito tempo.
-Sim eu sei, mas o que eu quero te mostrar não envolve vigias, mas sim grandes borrifadores de água que a cada meia hora borrifarão água o suficiente para umidificar o ar e voltaremos a respirar sem dificuldade. O que você acha?
-Eu acho que você está louco em pensar que alguém te dará ouvidos.
-A mim não, a você.
-O quê? Agora sou eu quem dirá que você está louco. É claro que eu não irei.
Ele dizia isso porque tinha uma família para tomar conta e o medo de morrer e deixá-los sozinhos era demais para ele, era aterrorizante.
Então eu disse algumas verdades:
-Veja bem seu covarde. Disse isso com firmeza e com a grosseria típica de um justiceiro.
-Olhe para o seu filho agora. Ele está com tanta dificuldade de respirar que eu ficarei feliz se ele durar até amanhã. E digo isso com um aperto enorme no coração sendo tio, imagino você como pai. Gabriel todos nós dependemos de você.
Naquele momento vi brotar de dentro do meus irmão uma força que eu só vi em poucos homens, mas o amor de um pai ruge mais alto que um leão faminto.
-Tubo bem, me explique tudo, que eu irei agora mesmo na ZAX sugerir a solução.
-Eu sei que essa solução não será para sempre, mas algumas vidas serão salvas, mesmo que eu salvasse somente uma já seria o suficiente para justificar o nosso esforço. Então pegue esses desenhos e leve para a unidade de preservação da vida e diga que no armazém dos justiceiros existem alguns borrifadores gigantes criados para serem utilizados em controle de grandes multidões borrifando gás do sono. Diga também que você os viu quando esteve preso na cadeia da associação que fica ao lado dos armazéns.
- Tudo bem irmão, eu irei agora.
Ele tomou fôlego, pos a sua máscara e partiu, embora nós soubéssemos que não era do feitio da ZAX deixar escapar pessoas que fizessem demostração de inteligência, pois representavam perigo a soberania dos tiranos. O seu amor pela família falava tão alto que ele não conseguia ou vir a voz do medo.
Duas horas depois ele estava na ZAX explicando para os responsáveis a sua (a minha) ideia. Por sorte os funcionários tinham parentes na ala oeste, então encaminharam a idéia para o setor de inteligência que ordenou que o cientista aguardasse que um carro o iria buscá-lo para falar sobre o seu invento.
Um frio subiu pela espinha de Gabriel que tremeu com medo de não voltar mais para casa. Não demorou e uma van blindada preta chegou a unidade, isso não trouxe boas lembranças ao meu irmão, então ele fechou os olhos, lembrou do rosto do seu filho buscando o ar e não achando, com dificuldade até de falar Papa... e entrou no carro lembrando de quando foi espancado até quase morrer em uma van como aquela da ZAX, nesse momento ele pôde deduzir quem tinha dado aquelas vans aos justiceiros, mas isso não importava no momento, o mais importante era explicar a idéia para resolver o problema de respiração de todos. Quando chegaram ao setor de inteligência uma equipe especializada em planos emergenciais já estava a postos, e um cientista perguntou: Qual é o plano?
Depois de explicar tudo ele teve que esperar. Enquanto isso aguardávamos em casa o retorno de Gabriel. Chegou a noite mas meu irmão não chegava, a sua esposa não falava nada, mas o seu olhar penetrante me condenava de ter matado o seu marido, o meu irmão. Essa dor também me consumia o peito. À noite melhorou um pouco, mas a ausência do meu companheiro me martirizava, por isso não consegui dormir pensando no que iria fazer se ele não chegasse. Pensei até em invadir a ZAX para tirá-lo de lá. Mas, e se ele já estivesse morto? Enfim eu não queria pensar nisso.
A manhã do dia seguinte chegou, mas meu irmão não. Eu já conseguia ouvir o choro de sua esposa que tentava esconder a sua tristeza, mas ela tinha que ser forte, pois possuía dois filhos para criar.
Naquela manhã o sol estava mais forte, além do problema da baixa umidade do ar, o enxofre ainda estava sendo acrescentado o problema do calor. Pensei desconsolado, hoje muitos morrerão, e não serão somente as crianças, mas adultos também, e a essa altura eu temia por minha vida também. Às 11 horas da manhã fez-se um grande silêncio até as 12 horas, pensei que todos haviam morrido, quando uma sirene tocou no alto da torre e uma nuvem de água encheu o céu da ala oeste como uma chuva, muitos ficaram com medo, pois não sabiam o que era isso, e então correram para as suas casas, mas quando sentiram o frescor e o alívio no ato de respirar saíram de suas casas cantando e pulando. O medo da morte recuara por um momento e o sorriso de felicidade por poder viver mais um pouco estava estampado no rosto de cada um deles. Mas em um rosto o sorriso não foi encontrado, era o rosto da mulher do meu irmão. Enquanto todos pulavam de alegria ela apenas olhava para os filhos brincando com a nuvem e respirava fundo. Eu observava o seu rosto sério e compenetrado quando um sorriso começou a se esboçar e fiquei muito confuso, olhei para o outro lado e vi meu irmão vindo em nossa direção com um sorriso de dever cumprido. Como um ex-combatente voltando para casa depois de ter vencido uma batalha. Corremos em sua direção e o abraçamos como nunca abraçamos antes, era como se ele tivesse morrido e ressuscitado e agora estava no nosso meio. Nesse dia ele foi o grande herói.
A humanidade foi salva por algum tempo. Mas e as outras alas? A terra ainda está morrendo. Como salvá-la?
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26 de novembro de 2012
"A esperança floresce"
Gabriel ainda estava sob o efeito do medo que sentira no setor de inteligência da ZAX, por isso dormiu a tarde toda depois de tomar um calmante feito à base de camomila, erva cidreira e maracujá. Quando acordou, já era noite, e nos reunimos para jantar em família. O seus filhos estavam radiantes, afinal o seu pai era o herói de verdade que morava com eles, a sua esposa estava feliz em tê-lo em casa mas sabia que aquela atitude traria responsabilidades que lhe tomaria tempo, tempo esse que ele não estaria com ela, isso a deixava preocupada. Enquanto estávamos jantando alguém bateu a porta chamando:
-Senhor Gabriel, senhor Gabriel.
Ficamos em silêncio pensando que fosse o setor de inteligência procurando o meu irmão para desaparecer com ele. Como não tínhamos como fugir, fui atender a porta.
-Pois não, em que posso ajudá-la?
-Eu procuro o sr. Gabriel. Ele está?
perguntou uma senhora muito simpática com um sorriso agradecido do rosto. Ela trazia consigo dois tomates.
-Por favor, eu preciso falar com o sr. Gabriel. Ele está?
Perguntou novamente, mas dessa vez levantou a cabeça sobre o meu ombro para procurá-lo.
Sentindo que não havia perigo algum, virei-me para chamá-lo, mas ele já estava atrás de mim.
-Sim senhora, eu sou o Gabriel.
Respondeu meu irmão calmamente, como lhe era de costume.
A senhora o abraçou de uma forma tão carinhosa, que eu me lembrei dos abraços da minha mãe sempre que fazíamos algo que a agradasse profundamente. E disse:
-Louvado seja o Senhor Deus por sua vida meu filho. Meu sobrinho trabalha na unidade de preservação da vida da ZAX, aqui na ala oeste, e me disse o que você fez. Você não tem idéia do bem que nos proporcionou com sua atitude. Minha netinha estava respirando muito mal há dois dias, certamente ele não suportaria mais um dia naquela situação. Mas quando as sirenes tocaram ao meio dia eu sabia que eram as trombetas dos anjos anunciando que a providência de Deus estava a caminho. Depois daquela suave brisa, que se repetiu à tarde toda minha netinha melhorou. Agora ele está respirando melhor, ele até sorriu pra mim, isso foi tudo o que eu precisava para continuar lutando. Gabriel você é um anjo. Por favor, aceite esses dois tomates que eu colhi na minha horta.
Ela o beijou na testa e saiu falando alguma coisa, que eu não entendi, levantando aos mãos para o céu.
Quando estávamos fechando a porta, alguém chamou, era um homem muito forte e alto com uma bolsa a tira colo. Pensamos que nem tínhamos aproveitado aquele momento de alegria e a ZAX já tinha nos encontrado, então ele disse:
-Por favor. O senhor que é o Gabriel que estão falando por aí?
Ele respondeu olhando para mim.
-Bem, eu me chamo Gabriel, mas não sei se sou daquele que estão falando por aí.
-Foi o senhor que fez chover hoje?
-Não foi una chuva foi um...
O homem o interrompeu com um abraço forte que quase tirou o seu fôlego, era um abraço de gratidão. Depois de algum tempo em silêncio abraçado ao meu irmão, Gabriel o interrompeu, pois não aguentava tanta gratidão, era pelo menos cento e cinquenta kilos de pura gratidão e músculos.
-Tu-tu-tu-do be-ee-ee-m, ufffffff.
-Desculpe sr. Gabriel, mas eu estou muito agradecido ao senhor pelo que fez hoje. Eu sou o vereador responsável por essa ala. Éramos 35, mas como já não havia água para pagar os vereadores, somente eu fiquei para cuidar de toda essa gente humilde aqui. Fiquei sabendo do que o senhor fez, e queria agradecê-lo pessoalmente, e dizer que, o que eu puder fazer para ajudá-lo estarei às ordens. O que quer que seja, eu estarei pronto para ajudá-lo. Ah! Meu nome é Big John, e eu trouxe um litro de água com gás, eu estava guardando para uma ocasião especial, por isso, trouxe para o senhor, pois essa é uma ocasião muito especial, afinal o senhor trouxe esperança para o povo. Obrigado meu novo amigo.
Sem palavras, Gabriel apenas disse:
-Fiz o que tinha que ser feito.
Disse isso estufando o peito como se fosse o super-homem.
-Mas, e agora?
falou o homem com cara de quem queria ouvir algo do meu irmão.
-E agora o quê?
-E agora? O que o senhor pretende fazer depois dessa conquista?
Agora com o peito murcho e gaguejando.
-Con-con-conquista, éééééé, peraí. (virou-se para mim e perguntou) -E agora?
Por alguns instantes tive uma visão motivadora de pessoas fortalecidas com esperança e encorajadas com a presença de uma pessoa que enfrentou a ZAX pelo seu bem estar. Eu não poderia fazer isso, afinal, eu estava morto para os justiceiros, mas, meu irmão não. Essa era a nossa chance de mobilizar o povo para uma virada, a partir de cada família daquela ala. Então tomei a palavra e disse:
-Meu irmão está um pouco cansado, mas ele o procurará para falar sobre algumas idéias que ele tem para melhorar as condições de vida da nossa gente.
-Gostei dessa expressão "nossa gente".
Exclamou Big John ameaçando abraçá-lo novamente.
-Não, não, não ainda estou me recuperando no último abraço.
-He he he he, além de herói é brincalhão. Adeus meus amigos.
Despediu aquele homem grande e forte, mas com um coração tão bom quanto o de uma freira, por isso, passamos a chamá-lo de frei.
Meu irmão ficou assustado com o que eu disse, mas expliquei que ele seria meu porta voz para ajudar toda aquela gente sofrida, mas que estava pronta para dar a volta por cima. Aquela era a hora de fazer a planta da esperança germinar e se expandir por todo aquele lugar.
A esposa do meu irmão estava preocupada, e eu não podia culpá-la, isso implicaria em riscos. Mas riscos que representariam um futuro melhor para os seus filhos.
Fechamos a porta, e felizes por tudo que ouvimos voltamos a jantar, agora com a comida fria mas com uma saladinha de tomates com gosto de gratidão.
O povo começou a se despertar para o futuro. O que Miguel estará pensando? O que fará a esposa de Gabriel?
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27 de novembro de 20112
"A esperança toma forma"
Acordei no dia seguinte radiante, a minha noite tinha sido de um descanso profundo. Pensei em chamar Gabriel para planejarmos os próximos passos, mas ele ainda estava dormindo, e a julgar pelas batidas que dei na porta e ele continuava sem responder, acreditei que a noite devia ter sido cansativa. Mas, tudo bem, saí para caminhar pelas ruas e avaliar o que deveria fazer, com muito cuidado para não ser descoberto. Identifiquei alguns problemas que precisavam ser solucionados a curto, médio e longo prazo.
A saúde das pessoas era deficiente pela constante mudança de clima causada pelo efeito estufa acelerado, e também, por causa das condições sub-humanas de higiene. O esgoto corria a céu aberto onde as crianças brincavam descalças. Animais faziam sua necessidades fisiológicas nas ruas, onde os pedestres caminhavam para os seus afazeres diários. Pneus velhos e garrafas vazias enchiam os terrenos baldios, fazendo proliferar o mosquito causador da dengue. Os Jovens faziam sexo sem proteção e faziam uso de bebidas ilegais durante festas chamadas de "libertinas". A feira central, onde as pessoas trocavam água por alimentos, era um mal cheiro violento, por que os usuários não lavavam depois das suas atividades de troca, restos de hortaliças, sangue e partes dos corpos dos animais abatidos a céu aberto, fezes e urina humana de homens e mulheres que faziam suas necessidades nas paredes e atrás dos muros, enfim era o verdadeiro caos o que eles chamavam de civilização. Eu já tinha visto tudo aquilo, mas nunca com os olhos de alguém que quer transformar essa situação. Era simplesmente impossível modificar aquela realidade se todos não quisessem colaborar. Então, esbarrei no primeiro problema a ser vencido, motivar a população a querer sair daquele estado deplorável de vida humana. Voltei para casa desanimado diante de tamanho problema. Quando cheguei, meu sobrinho mais velho estava brincando de carrinho, gastei alguns minutos observando a brincadeira e aprendi uma lição importante, sempre que o carrinho se deparava com algum obstáculo, ele levava um bonequinho responsável pelas obras até o problema para resolvê-lo imediatamente, quando o carro quebrava, ele chamava o responsável pelos consertos e quando estava com fome, ele chamava o boneco responsável pela comida. Enfim, cada boneco resolvia o seu problema, e todos usufruíam dos serviços comuns sem sobrecarregar ninguém, com isso, a cidade do meu sobrinho de dez anos estava melhor do que a ala oeste atual. Depois de aprendida a lição dei um beijo de aprovação no jovem líder e fui almoçar com o Gabriel. Expliquei-lhe tudo o que tinha visto e tudo o que tinha aprendido com meu sobrinho. Ele ouviu atentamente cada palavra, mas no final ele perguntou:
-Irmão, você acha que isso dará certo mesmo? Eu estou com medo e quero desistir. Ontem a noite eu estava conversando com minha esposa sobre tudo isso, e ela me convenceu de que as crianças nunca ficarão seguras, teremos que nos privar de algumas coisas como passear juntos, levar para a escola, e visitar amigos.Sempre que alguém bater em nossa porta acharemos que é a ZAX tentando nos matar. E se os justiceiros com o tenente Bastos de encontrarem?
Interrompi os questionamentos e terminei a conversa com uma frase apenas:
-E se os seus filhos não tiverem mais o planeta terra para viver?
Ele se calou, olhou para esposa com um ar de questionamento e chamou-a
- Meu amor ele está certo, precisamos lutar contra esse inimigo, senão, nós e nossos filhos, nunca teremos paz nem um lugar para viver. Você está comigo nessa batalha pelos nossos filhos?
Ela balançou a cabeça de um lado para o outro, olhou para ele fixa e seriamente, esboçou um sorriso e disse:
-Meu amor, quando nos casamos eu prometi que estaria ao seu lado para o que der e vier, mesmo sem concordar com você. Então, você não irá se livrar de mim tão fácil assim. Irei com você por onde quer que fores.
Enquanto eles conversavam meu coração apertava mais, pois eu só confiava em Gabriel. Mas, tudo deu certo e o laço familiar foi reforçado com confiança, coragem e amor.
Conversamos durante muito tempo e decidimos que falaríamos primeiro com frei, isto é, Big John, sobre uma divisão de tarefas para as principais áreas de necessidade social como saúde, saneamento e limpeza, comércio e educação. Essas pessoas seriam indicadas pelo povo e a cada dois anos haveria uma nova votação decidindo pela sua permanência ou não. Em princípio os próprios moradores fiscalizariam as modificações e poderiam retirar qualquer líder se não fizesse um bom trabalho em assembléia de forma democrática. Os recursos para as melhorias seriam fornecidas pelos mesmos moradores.
Logo que falamos com Big John ele disse que haveria uma reunião com os anciãos (pessoas mais velhas, portanto mais sábias), naquele mesmo dia e nós estávamos convidados.
Quando a noite chegou eu já tinha tratado com Gabriel sobre tudo que deveria ser feito com detalhes, então fomos para a reunião, onde esperavam o herói Gabriel e as suas ações futuras. A reunião aconteceu na casa de Big John que nos apresentou como Gabriel e seu irmão, perfeito para quem não queria ser descoberto
Quando chegamos fomos recebidos pelo Big John com aquele abraço característico. Para a nossa surpresa quase toda ala oeste estava no pátio da casa. Fomos recebidos com aplausos e gritos de : "Vivas ao nosso herói, viva, viva,viva". Os olhos de Gabriel brilharam com a alegria do povo e seu entusiasmo por mudanças. Eu deixei escapulir uma lágrima, e quando perguntaram eu disse que era um cisco. Todas aquelas pessoas estavam motivadas pelo ato de coragem de Gabriel e estavam dispostas a fazer o que fosse necessário. Isso me deixou muito feliz.
Será que todos que estavam lá queriam mudanças? Tomara que nenhum deles seja espião da ZAX.
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28 de novembro de 2012
"Ouvidos traiçoeiros, boca traidora"
-Entrem e alegrem-se conosco. Esta reunião tornou-se uma festa por causa da presença de vocês. Estão todos querendo conhecer o anjo Gabriel.
-Anjo? Mas quem disse isso? Perguntou meu irmão desconfiado.
-Ora, foi a dona Jupira.
-E quem é dona Jupira?
-É aquela senhora com a criança no colo.
Gabriel olhou fixamente tentando lembrar, pois já tinha visto aquele rosto em algum lugar.
-É aquela senhora que nos deu os tomates. Disse baixinho ao seu ouvido para que ela não soubesse que não tínhamos lembrado dela. Talvez não tenhamos gravado a fisionomia por causa do susto daquela noite.
Acenamos para ela, que já estava sorrindo para nós desde a hora que chegamos. Chegamos mais perto para agradecer os tomates e conhecer a sua netinha.
-Boa noite dona Jupira? Cumprimentou Gabriel.
-Boa noite anjo. Veja, essa é a minha netinha Janine que o senhor salvou. Dê um abraço no anjo minha filha.
Ela desceu do colo da avó, correu até Gabriel com seus lindos cabelos loiros encaracolados, pôs as mãos na cintura e disse:
-Obligado seu an-an-anjo.
E então abriu os braços, e Gabriel que já estava abaixado, recebeu o abraço mais carinhoso que alguém poderia receber, pois tinha sentimento de gratidão de um coração sincero. Ele se emocionou, mas se segurou, pois ainda tinha uma reunião pela frente. Ela voltou para a sua avó sorridente.
Mas, ao lado da dona Jupira tinha um homem muito sério que não parava de olhar meu irmão de cima a baixo. Perguntei ao John:
-Frei, digo, John. Quem é aquele homem ao lado da dona Jupira?
-Aquele é o Fred, ou Frederico, como quiser, ele é o pai da Janine. As crianças o chamam de Fred Krugher, aquele do filme de terror. Ha-ha-ha-ha.
Depois de falar me deu um tapinha nas minhas costas que quase me derrubou.
-Ok pessoal, a conversa está boa, mas , temos uma reunião para dar conta e todos estão entusiasmados com o que o senhor Anjo tem para nos falar.
Nos reunimos ao redor de uma grande mesa retangular, onde todos ouviam Gabriel falar como nunca tinha ouvido antes. O seu entusiasmo e eloquência era tamanho que até eu fiquei envolvido com suas palavras. Ele enfatizou a questão da eleição dos responsáveis pelas áreas de ação da ala, como saúde, saneamento e limpeza, comércio e educação. Essas 4 áreas deveriam ter ações imediatas. Ele pediu ao John que indicasse 4 pessoas para trabalharem nessas áreas com a supervisão dele mesmo. Mas ele retrucou:
-Nós podemos até votar hoje nessas pessoas, mas eu quero antes propor uma outra votação antes. Atenção pessoal, como único vereador da ala oeste e quero indicar o senhor Gabriel para ser vereador comigo.
-ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ. Foi a resposta do povo.
Gabriel ficou surpreso e disse gaguejando de nervoso:
-Ma-ma-ma-mas vocês nem me conhecem.
-Nós podemos não conhecê-lo por fora, mas por dentro, sabemos que você é um poço de coragem e bondade. E aí? Você aceita? Falou levantando as sombracelhas.
Meu irmão olhou para a sua esposa, que acenou aprovando, e olhou para mim que também aprovei.
-Quero agradecer o convite, mas, eu devo dizer que... (pausa) Para mim será um prazer trabalhar com vocês. Mas com uma condição, a de que todos trabalhem como fôssemos uma grande e unida família.
-ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ. Todos gritaram de alegria.
Dona Jupira pulou no pescoço do novo vereador dizendo:
-Eu sabia que você aceitaria, eu sabia. Eu sei que você tem no seu coração muito mais do que você mesmo pensa. Obrigada, e pode contar comigo para qualquer coisa.
-Calma gente, calma gente. Dizia John querendo continuar a reunião. Ainda temos que preencher as quatro vagas para o cargo de, o cargo de. De que vamos chamar os responsáveis mesmo? alguém gritou na multidão: "Secretários". Isso mesmo secretários.
Não demorou muito e muitos levantaram a mão para ajudar, mas como John conhecia muito bem o seu povo, e começou a delegar.
-Dona Jupira, como a senhora foi professora, eu a indico para o cargo de secretária da educação. A senhora aceita?
-Sim é claro!
-Quem concorda levante a mão.
A grande maioria levantou a mão e logo depois seguiram-se aplausos.
-Parabéns dona Jupira, eu a declaro secretária da educação.
Ela deu um sorriso largo e disse:
-Prometo que farei o meu melhor.
-Senhor Martinho, como o senhor é bombeiro hidráulico, eu o indico para a secretaria de saneamento e limpeza. O Senhor aceita?
-Sim, eu aceito sim sô.
-Quem concorda que o senhor Martinho assuma o cargo, diga sim.
-Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim.
Ele se levantou e vez uma leve reverência para o povo, agradecendo o voto de confiança.
-Para o cargo de secretária da saúde eu indico a dona Bete, que é enfermeira. A senhora aceita?
-Desculpe John, mas eu trabalho no posto de saúde, por isso não terei tempo para tratar de assuntos que demandem tempo. O posto já me deixa super atarefada. Mas prometo ajudar nas minhas folgas.
-Tudo bem Bete, eu entendo você.
Uma voz lá no meio disse:
-Eu me indico.
-Quem disse isso?
-Eu, Rosalina. Eu fui enfermeira por 25 anos e me aposentei, mas gostaria de ajudar na área que conheço bem.
-Ótimo dona Rosalina. Quem concorda diga :" eu ajudarei"
Em uníssono responderam : "Eu ajudarei"
-Muito bem, agora comércio. Senhor Nagib, eu indico o senhor, já que é o comerciante mais antigo da Ala.
-Posso ter uma comissão? Perguntou o senhor Nagib enrolando o bigode.
-Senhor Nagib!!! Exclamou John.
-Brincadeirinha, brincadeirinha. Aceito sim. Vamos organizar o mercado com barraquinhas numeradas de cor azul e vamos cobrar que cada comerciante limpe o lugar em que trabalha.
-Muito bem quem concor...
-Nagibe, Nagibe, Nagibe. Gritou o povo empolgado.
-Muito bem. Reunião encerrada. A próxima será amanhã, depois do jantar em suas casas. Hoje o jantar é por minha conta para comemorar o primeiro passo de uma longa caminhada. Olha só, até eu, tô falando bonito. Ha-ha-ha-ha. Seja Bem vindo Gabriel. Novamente Deu-lhe aquele abraço quebra-ossos.
Depois da reunião John ofereceu um banquete humilde, mas de muito bom coração. Todos se divertiram e já começaram a conversar sobre a reunião do dia seguinte. No final, o dono da casa teve que mandar todos para as suas casas porque já estava tarde.
Durante toda a reunião o Fred não tirou os olhos do meu irmão, achei estranho, mas poderia ser o meu lado justiceiro falando mais alto. Mas algo me dizia que eu deveria tomar cuidado com ele.
Fomos para casa, com as crianças dormindo. No caminho eu conversei com meu irmão.
-O que foi aquilo? Que motivação foi aquela?
-Foi a netinha da dona Jupira. Eu sempre quis ter uma menininha e quando a vi cheia de vida por causa do meu esforço eu me senti recompensado e motivado a fazer mais.
-Muito bem senhor vereador.
-Mas isso graças a você meu irmão. Obrigado por me ajudar a ajudar outras pessoas.
-Faço isso porque amo vocês.
-Obrigado irmão.
Naquela mesma noite o Fred, escreveu uma carta para o seu irmão que trabalha na ZAX, contando tudo o que aconteceu, dizendo que um tal anjo Gabriel estava tentando derrubar a ZAX na ala oeste,e que era para eles tomarem cuidado. Dizia também que tudo estava bem e que não precisava ter mudança alguma. Ele disse isso porque era preguiçoso e vivia as custas da sua mãe, e se ela trabalhasse ele teria que tomar conta da filha, já que a mãe da menina tinha morrido no parto, nos braços da sogra. Por isso, dona Jupira se sentia tão responsável pela memina.
Está tudo bem encaminhado. Mas será que o Fred vai conseguir parar o entusiasmo do povo?
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29 de novembro de 2012
"Velhos hábitos nunca se esquece."
No dia seguinte saí, dizendo que faria uma caminhada, mas cautelosamente segui o Fred para ver o que ele faria depois de ter presenciado tudo aquilo no dia anterior à noite. Aquele olhar de esquilo que come a noz de olho no predador, parecia que ele estava ali para sondar o que estávamos fazendo. Poderia ser paranóia minha, por ter trabalhado prendendo marginais durante muito tempo. Mas, não custava nada mesmo, eu só precisava tomar cuidado com os justiceiros, ainda bem que eu trabalhava na ala norte e poucos me conheciam ali na oeste. Segui suspeito de longe para que ele não me visse e desviasse o caminho. Pouco a pouco ele foi mostrando para onde iria, para a unidade de preservação da vida da ZAX, onde trabalhava seu irmão, com um envelope na mão. Não demorou muito e ele entrou no escritório e saiu rapidamente, mas sem o envelope. Entrei para pegar alguns folhetos explicativos para ver com quem tinha ficado o envelope. Vi um homem muito parecido com o Fred abrindo o envelope e começando a ler. Antes que eu pudesse ver a sua reação, me deparei com o tenente Bastos entrando no escritório, virei para a parede rapidamente, mas pude perceber que ele estava usando um crachá da ZAX. Fiquei confuso, pois ele era um alto funcionário da associação dos justiceiros. Saí do escritório antes que ele me visse, mas em um olhar de relance ele me viu de perfil e me seguiu com os olhos como se estivesse lembrando de algo. Para os justiceiros eu estava morto, graças ao meu irmão Rafael que cuidou para que eu sumisse dos olhos dos justiceiros. Eu sabia que a hora que aquele papel caísse na mão dos justiceiros eles apareceriam na minha casa para averiguar. Eu precisava pensar no que fazer para proteger a minha família, mas não queria deixá-los preocupados antecipadamente.No retorno para casa, me dei conta de que não vi nenhum justiceiro na rua e isso me preocupou.
Quando cheguei em casa o almoço já estava pronto, enquanto comíamos eu conversava com Gabriel sobre a reunião da noite. Expliquei para ele tudo o que era necessário para que os secretários deveriam fazer na execução das suas funções. Sugeri também a criação do cargo de tesoureiro, mas que o John ficasse responsável durante o início dos trabalhos. Depois do almoço eu dormi um pouco e sonhei com um planeta lindo, com cachoeiras, árvores frutíferas, flores multicoloridas e animais gordos pastando nos verdes pastos. As crianças corriam e brincavam na grama fina e macia como um tapete, enquanto seus pais conversavam e sorriam alegremente. Acordei com Gabriel me chamando para a reunião. Quando chegamos lá, adivinha só quem estava lá. O Fred. Isso mesmo o dedo-duro do filho da ... dona Jupira. Novamente ele não tirava os olhos do Gabriel. Então eu dei a volta por trás dele para ver se ele estava armado, mas não estava, a única arma que ele tinha era a boca. Transportei uma cadeira por sobre a sua cabeça, e por querer esbarrei forte no alto da sua cabeça. Pedi desculpas, e desviei o seu olhar para mim. A reunião foi muito produtiva, todos os secretários levaram seus assistentes para colaborarem na liderança. Pensávamos que terminaria às 22:00 h, porém terminaram de de tratar o último assunto às 2:00h. Ainda bem que dessa vez as crianças não foram. Naquela noite eu não dormi, fiquei de guarda na sala de frente para aporta, eu não deixaria ninguém passar e agredir a minha família. Na manhã seguinte, chamei Gabriel e disse que teria que resolver alguns assuntos inacabados na ala norte.
Eu sabia que não teria sossego se continuasse fugindo como rato foge do gato. Aquela noite em claro tinha sido a primeira de muitas noites, com medo de que pessoas más nos causassem algum mal. Então eu decidi ir até associação dos justiceiros para saber o que estava acontecendo. Por que o tenente Bastos estava com um crachá da ZAX? Por que eu não estava vendo os justiceiros nas ruas? Para quem foi aquele relatório de o Fred entregou no escritório da ZAX? Enfim, são muitas perguntas e poucas respostas, mas eu precisava delas para continuar. Além disso eu tinha que garantir a segurança do Gabriel e sua família.
A ala oeste está se reestruturando, mas o resto do mundo de Miguel está um caos e ele precisa de respostas. Será que ele irá consegui-las? Será que ele irá arrumar outros problemas nessa busca?
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30 de novembro de 2012
"Nem tudo é conforme nós imaginamos."
Saí da ala oeste muito cedo para evitar os justiceiros na rua, mas não seria necessário, pois não encontrei nenhum pela estrada. O ônibus velho que me levava, não possuía a porta de saída, somente a de entrada, os pneus eram tão carecas que se passasse por cima de uma formiga furava, os vidros tinham tanta poeira que parecia uma tinta vermelha por causa do barro da estrada. Pelo menos o motorista sabia dirigir, também, dirigindo todos o dias, uma hora ele teria que aprender.
Quando cheguei a ala norte, vi muitos cartazes de protesto do povo contra os justiceiros. A associação tinha sido pichada com a seguinte frase: "Quem mata não merece viver". Fiquei espantado com o que presenciei, mas não me intimidei e entrei na associação, não encontrei nenhuma pessoa conhecida, olhei para os seus rostos e percebi que eles estavam mais assustados comigo do que eu com eles, perguntei quem era o capitão, desconfiados eles apontaram para um homem sentado em uma mesa cheia de papel com as duas mãos na cabeça em sinal de preocupação. Bati a sua porta sob olhares curiosos, mas quando vi o novo capitão fiquei muito feliz, era um jovem que eu tinha treinado, ele me ajudou muito na captura de jovens que traficavam bebidas, inclusive um que se chamava Jackson, muitos se destacaram no curso mas o soldado Estevão se superava a cada dia, e agora estava liderando os justiceiros.
-Bom dia capitão!
Ele nem ainda tinha levantado a cabeça ainda quando começou a pronunciar meu nome e o fez como sinal de surpresa e felicidade.
-Sargento Miguel.
Levantou-se da cadeira com pressa e caminhou em minha direção com mais perguntas do que eu tinha para responder.
-Sargento, por onde o senhor andou? O que estava fazendo? Está tudo bem com o senhor? Voltou para nos ajudar?
Depois da última pergunta eu fiquei preocupado, então o enterrompi.
-Espere aí. Ajudar os justiceiros? Mas como? Vocês sempre foram a mão da justiça a favor do povo.
-É, parece que o senhor ficou fora do ar mesmo. O senhor lembra quando o soldado Viegas morreu?
Respondi desconfiado, mas positivamente sem gaguejar.
-Sim eu lembro, era um bom soldado.
-Não, não era. Ele fazia parte de uma corja de justiceiros que denegriram a imagem da corporação matando pessoas inocentes por pura diversão e roubara centenas de litros de água que pagaria o salário dos colegas por alguns meses. Mas, ainda bem que o tenente Bastos descobriu tudo, ele disse que foi tratar de assuntos relacionados a associação com o capitão Zenon, quando viu um camaro amarelo saindo em alta velocidade em direção a favela onde o Viegas tinha morrido, ele entrou na casa, mas encontrou o capitão morto junto de sua esposa. Depois o tenente seguiu o caminho do carro que viu saindo e o encontrou, em seguida ele ouviu tiros e uma gritaria que denunciou onde eles estavam, ele tentou dialogar, mas os homens não queriam conversa e saíram atirando, ele não teve escolha e em um violento confronto com os soldados Max e Bruno e o cabo Severo, foi obrigado a matá-los em defesa própria, desmantelando a quadrilha que armou tudo, mas a água nunca foi encontrada. Documentos foram encontrados falando da distribuição da água para criminosos inclusive o Viegas, e demais bandidos de outras alas. Falava também de uma vingança dos bandidos contra senhor. Por isso imaginamos que o seu desaparecimento estivesse relacionado a isso. A morte do amigo Zenon causou uma indignação muito grande. Muitos justiceiros desistiram da associação para trabalhar na fábrica, pois ficaram sem pagamento, principalmente os amigos do tenente Bastos que foi contratado como chefe da segurança. Os poucos que permaneceram, foram porque não conseguiram emprego na fábrica, e aqui pelo menos eles tem comida, bebida e um lugar para dormir. Eu ainda era soldado, quando foi promovido a capitão, graças as recomendações que o senhor fez na minha ficha. O nosso Governo está enfraquecido por causa da ZAX que manda e desmanda, eu estava pensando nisso agora mesmo antes do senhor entrar, isso me dá uma revolta tão grande que eu seria capaz de uma loucura.
-Calma rapaz. Não é assim que se resolve as coisas. Eu também já me senti assim e não fui capaz de resolver muita coisa. Sempre que um mar de problemas quiserem te afogar, não vá direto para a areia, nade paralelo a praia até chegar na areia, dessa forma a correnteza das pessoas ruins na irá te cansar.
Toda aquela mentira estava me embrulhando o estômago, eu queria falar toda a verdade sobre o tenente Bastos, mas ainda não era a hora. Eu precisava de provas que até então não tinha, mas conseguiria a qualquer custo.
Então o capitão começou suas investidas para me segurar mais tempo na associação.
-Sargento o senhor sempre foi o meu herói. Para mim será um prazer trabalhar novamente ao seu lado.
-Calma, calma. Eu não disse que voltaria. Eu só estou aqui para responder algumas perguntas que você já me ajudou a responder.
-Muito bem, já que eu poupei o seu tempo, osenhor pode me ajudar com essa papelada.
-Você é insistente mesmo hein.
-Eu tive uma boa escola. He-he-he-he.
-Não olha pra mim assim, eu não te ensinei a ser incoveniente.
-Mas me ensinou a conquistar os meus sonhos com trabalhalho honesto.
-Isso sim. Ha-ha-ha-ha
-O seu alojamento está do mesmo jeito que o senhor deixou. Pode entrar, tome as chaves.
-Tudo bem, mas só o tempo para te desafogar dessa papelada.
Eu não sabia que tinha tanto papel assim. Somente naquele dia trabalhamos até as 3:00h. Demoramos 3 dias para colocar toda documentação em dia. Revemos os processos das pessoas presas, onde a maioria estava ali porque teria roubado comida para não morrer de fome, liberamos muitos, inclusive com um pouco de água para comprarem comida até arrumarem um emprego, aproveitei para incentivá-los a irem para a ala oeste, porque lá estavam precisando de mão de obra especializada para reconstruir aquele lugar, e me orgulho em dizer que muitos deles se candidataram para serem justiceiros. Nos demais dias que se seguiram, nós treinamos os rapazes que nem sequer sabiam segurar uma arma. Ensinamos como fazer uma abordagem respeitosa e como identificar os verdadeiros bandidos, para não confundirem com pessoas de bem. Todos estavam alegres, porque eram tratados com respeito e dignidade. Aprenderam tão rápido que até eu fiquei surpreso. A mudança foi tão grande que os próprios moradores ajudaram a reformar a associação, e o respeito voltou a prevalecer na ala norte.Como a associação estava ganhando prestígio junto ao povo, muitos jovens se candidataram a serem aprendizes de justiceiro , e eu cuidava dessa parte, pois fazer com que esses jovens saíssem das ruas, das drogas e debaixo do poder dos traficantes era gratificante.
Toda semana eu enviava uma carta pelo motorista de ônibus e quase sempre ele trazia uma também. Eu não conseguia segurar as lágrimas sempre que recebia as vibrantes informações do crescimento da ala oeste. Todos estavam bem, mas o Fred continuava observando tudo de uma forma suspeita. Mas, o único perigo era a ZAX e eles estavam muito preocupados com a construção da New Home.
Miguel pensou que tivesse que se esconder, mas a sua presença foi tão querida, que a imagem dos justiceiros mudou. Mas até quando isso vai durar?
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01 de dezembro de 2012
"O dia em que o chão tremeu"
Depois de 60 dias de trabalho gratificante na ala norte, recebemos uma visita ilustre. Um sofisticado carro preto, com vidros negros como os olhos de um leopardo faminto e rodas cromadas como as garras de um leão defendendo seu território, chegou diante da associação. Desceu um distinto cavalheiro vestindo um terno de linho negro como um grande buraco no universo que suga planetas fazendo-os desaparecer. Seus óculos escuros denotavam seu caráter, e os sapatos pretos mostravam seu caminho de escuridão. Ele pediu para falar com o capitão Estevão, que estava em sua sala. Um dos justiceiros de plantão o levou até onde estava Estevão e o anunciou:
-Com licença capitão. Há uma pessoa aqui que quer falar com o senhor.
-Pode deixar entrar soldado.
Entrou um homem alto como se estivesse acima de todos, com um chapéu negro como se quisesse esconder seus pensamentos.
-Bom dia capitão.
-Bom dia. Mas quem é o senhor mesmo?
-O senhor costuma esquecer fácil dos seus superiores?
-Desculpe senhor, mas...
-Tenente Bastos?
Ele tirou o chapéu e os óculos, então o capitão reconheceu.
-Tenente ! Que prazer. É uma honra tê-lo aqui na nossa humilde associação.
-Não é tão humilde assim. Nem no meu tempo de justiceiro, e olha , foram os melhores tempos da associação, eu vi essa unidade tão limpa e organizada. Parabéns capitão. E a carceragem está cheia de vagabundos?
-Não senhor, não temos nenhum.
-Mas que trabalho fraco é esse que não prende ninguém.
-Desculpe tenente, mas o nosso trabalho principal aqui na associação é disciplinar as pessoas com respeito, para que elas não venham a cometer delitos novamente. E tenho que admitir, nunca tivemos um índice de delitos tão pequeno. As pessoas cometem erros muitas vezes por falta de opção, por isso, fizemos uma parceria com os comerciantes e a cooperativa de prestadores de serviços para arrumar empregos para essas pessoas. Estamos indo muito bem tenente.
-É, posso ver. Mas, posso me sentar capitão? E mais uma coisa, não me chame de tenente. Isso hoje para mim é pejorativo. Eu sou o chefe da segurança da ZAX. Entendeu? Che-fe. Isso sim é cargo de prestígio. por favor me chame de CHEFE.
-Sente-se CHEEEFEEEE.
-Não brinque comigo capitão, eu tenho poder para te enviar para um lugar bem distante daqui, se possível algum lugar que tenha que andar muito para chegar.
-Desculpe chefe. Em que posso servir chefe?
-Eu quero que os justiceiros expulsem, aliás convençam aos moradores da favela da ala norte a saírem de suas casas para a construção de um laborat... quero dizer um armazém para guardar a grande quantidade de utensílios para Hope. Eu comecei a fazer esse trabalho a alguns meses atrás, mas tivemos todos aqueles problemas e a ZAX decidiu esperar um pouco, mas agora que a poeira baixou eles me pediram para vir até aqui para negociar com o senhor esse pequeno trabalho. Que... chegue mais perto por favor. Que irá te render uma boa gratificação. Escute capitão, o senhor ainda tem aquele uno mille da Fiat, ele é 2055 ou 56, estamos em 2078. Então são 23 anos de uso? Estou certo? Enfim eu estou andando de BMW. O senhor poderia ter um carro igualzinho o meu.
-Por favor tenen... isto é chefe. O senhor está tentando me subornar? (Perguntou o capitão indignado com o que acabara de ouvir, ainda sem acreditar.) O Senhor veio até a minha sala me insultar com essa proposta absurda.
-Tudo bem. Além do carro eu consigo também um bom cargo na fábrica para você.
Dessa vez o capitão esqueceu tudo o que tinha ouvido do chefe Bastos e falou de forma enérgica.
-Escute aqui chefe, tenente, o cacete a quatro, como o senhor quiser. Quando eu entrei para os justiceiros, o meu pensamento era de ajudar os pobres diante das injustiças praticadas pelos ricos inconsequentes, e não o contrário.
O chefe também começou a falar sem controle, inclusive com palavras de baixo escalão.
-Escute aqui seu garoto de merda, foi eu quem pôs você aí nesse lugar, e se eu quiser posso tirá-lo também a hora que eu quiser. Você não passa de um empregadinho da ZAX sem reconhecimento, você é apenas um bastardo da ZAX, ou você não sabia que o governo está quebrado, falido e não tem água para pagar até mesmo aqueles que ganham um salário de merda como o seu. Somos funcionários da mesma empresa, a diferença é que EU MANDO NESSA MERDA, EU MANDO EM VOCÊ.
Os olhos do chefe Bastos já estavam vermelhos e a sua boca estava espumando, suas veias do pescoço pareciam que iam estourar a qualquer momento. Nesse momento, entrei pela porta assustado e perguntando:
-O que está acontecendo aqui? Podemos ouvir os gritos lá fora.
Vagarosamente, como se estivesse conhecendo a voz, o chefe Bastos olhou para trás.
E com um olhar de susto e surpresa, eu reconheci o antigo perseguidor e assassino do seu amigo. Por alguns instantes eu relembrei a cena com o amigo Zenon e fiquei sem ação.
Enquanto isso o chefe sacou sua arma e apontou para a minha cabeça ameaçando-me dizendo:
-Dessa vez eu não deixarei que me tirem esse prazer de ver você dando o seu último suspiro.
Disse isso engatilhando a arma e se aprontando para puxar o gatilho enquanto olhava fixo nos meus olhos. Mas o gesto foi interrompido com o cano gelado do revólver do capitão Estevão encostando no seu pescoço junto da ordem "abaixe a arma agora, pois quem manda aqui sou eu", disse o capitão com toda autoridade de um capitão justiceiro, e continuou, por favor sargento pegue a arma do senhor Bastos, porque aqui ele não passa de um cidadão que merece o devido respeito, tire a munição e coloque no seu bonito carro que não me faz falta alguma, nem o seu emprego nem qualquer proposta que ele possa me fazer. E outra coisa, saia da minha frente agora, antes que eu o mande prender por desacato a autoridade. Por favor, retire-se imediatamente, o nosso assunto está encerrado, Por favor sargento, conduza o cavalheiro até o seu carro em segurança.
Ele disse isso porque todos os justiceiros de plantão e residentes já estavam com suas armas apontadas para o chefe Bastos e certamente eles não sabiam quem era ele, por isso poderiam atirar para nos proteger. O chefe pôs seus óculos, arrumou seu chapéu na cabeça e disse calmamente:
-Você irá se arrepender. E você Miguel, é melhor dormir com um olho aberto a partir de hoje.
Virou as costas e saiu. Quando ele já estava no carro, eu entreguei a sua arma dizendo:
- Bastos, os tempos mudaram, mas a verdade nunca muda, e ela virá a tona, mais cedo ou mais tarde.
- Então eu espero que você esteja vivo para prová-la, e deixa eu te dizer: "ela tem gosto de sangue".
Dizendo isso, ele saiu em alta velocidade quase atropelando uma linda jovem, com uma beleza que eu nunca tinha visto antes, mesmo depois dela xingar gritando para o bastos: "seu filho da puta, se não sabe dirigir deixa uma mulher te ensinar". Por alguns instantes eu viajei enquanto aquela mulher vinha na minha direção, e quase não escutei quando ela disse de forma meiga e doce:
-Por favor, e gostaria de falar com o sargento Miguel.
A vida novamente deu uma reviravolta nos planos do nosso herói. Grandes mudanças acontecerão na vida e no coração do sargento Miguel.
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02 de dezembro de 2012
"A paixão nos motiva a enfrentar até a morte"
-Bom dia, eu tenho uma entrevista com o sr. presidente.
-Sim. O senhor é o sargento Miguel eu suponho?
-Sim, sou eu.
-Por favor aguarde um pouco, já irei chamá-lo.
-Obrigado. Esperou um pouco, e quando já estava impaciente ouviu a secretária chamá-lo pelo nome.
-Sargento Miguel. O senhor já pode entrar.
-Obrigado. Falei ansioso para entrar e fazer as suas perguntas.
Entrando na sala havia um homem sentado na cadeira de costas para mim, o que gerou muita curiosidade, já que há muito tempo não viam o presidente exercendo as suas funções. Existia até o boato de que ele estava louco. Todos esses pensamentos rodeavam a minha cabeça antes de vê-lo e falar-lhe.
-Senhor presidente.
O homem virou a cadeira lentamente e pude vê-lo, o que me causou certo susto porque esperava um homem velho e carrancudo, mas era um homem jovem, razoavelmente simpático e sorridente.
-Bom dia senhor Miguel.
-Bom dia senhor presidente.
-Desculpe sargento, mas o senhor Silva não pôde atendê-lo hoje. Ele teve um compromisso urgente referente a construção da New home hoje, e em decorrência disso não pôde atendê-lo, ele pede desculpas.
Eu sou o senhor Bournier, relações públicas do Sr. Silva. Por favor, não dê ouvidos ao que dizem por aí, digo isso por causa dos boatos de que o sr. Silva está louco, isso não é verdade. Ele está muito atarefado com a construção da New Home, e os investidores são muito exigentes. Mas, também o presidente não costuma falar muito, principalmente quando o assunto é seu passado, isso deixa os repórteres malucos e sempre querem achar um motivo para denegrir a imagem desse homem batalhador e que sustenta essa empresa nas costas.
-Você é um grande admirador do seu chefe não é?
-Sim sou, e não escondo isso, aprendi muito com ele, principalmente com sua história de vida. Mas enfim, não viemos aqui para falar sobre o sr. Silva , mas da ZAX, embora não seja possível falar de um sem mencionar o outro. Qual o seu objetivo com essa entrevista sr. Miguel?
-Nada demais. O senhor sabe que eu sou sargento justiceiro e há alguns dias atrás nós perdemos um colega na desapropriação em uma das favelas da ala leste.
-Sim eu sei, e devo dizer que nós contribuímos para o fundo dos justiceiros mortos em trabalho.
-Mas senhor Bournier, eu não estou aqui para isso. Estou aqui pelos meus amigos vivos que estão lá botando a cara deles na reta. Eu gostaria de saber o que a ZAX realmente pretende com essa desocupação.
-Sargento, nós já declaramos que precisamos de novos armazéns para guardar produtos manufaturados por nossa fábrica. Esse é o motivo.
-Senhor, eu não sou burro e sei que vocês não investiriam tanto dinheiro na associação se não tivessem um retorno maior garantido. E vou dizer mais, pessoas inocentes estão morrendo por esse motivo, qualquer que seja. E eu não irei descansar até descobrir o que está acontecendo. Ah! Outra coisa na próxima vez eu quero falar com o presidente.
-Entendo a sua preocupação e cuidarei para que o senhor tenha um encontro muito especial em breve.
-Eu acho bom. Bom dia sr. Bournier.
-Bom dia sargento.
Saí daquela sala furioso por ter sido tratado como um burro e por não ter falado com o presidente, que certamente teria as respostas que eu precisava, mas certamente a próxima reunião seria com o sr. Silva, afinal, ele disse que eu teria um encontro especial.
Quando saí ouvi a secretária falando com sr. relações públicas.
-Senhor, o presidente do conselho administrativo está na linha 2.
-Só me falta essa, aqueles ricos mimados querendo bajulação Tudo bem, pode passar. Bom dia senhores. Em que posso ajudar? Vocês sabem que eu sou todo de vocês.
-Certo, eu quero seu fígado agora.
-O que senhor!!!!!!
-Calma, pare com essa bajulação barata, nós pagamos muito bem para você ficar agindo assim. Escute.A ala leste já foi limpa para a construção no novo laboratório de criação de clones para transplante de órgãos humanos?
-Sim senhor, mas...
-Mas o que seu verme. Eu sei que as coisas não estão indo bem. Nós estamos morrendo e dessa forma não poderemos viver para conhecer o planeta Hope. Se não der tempo teremos que tomar os órgãos doentes desses trapos humanos que vivem nas favelas e eu não estou disposto a isso. Acelere esse processo, água é o que não falta, temos muito para comprar o que for necessário, até você. Aliás eu gosto muito do seu braço direito.
-O que senhor!!!!!!
-Estou brincando seu medíocre. Dê mais água para os justiceiros acelerarem o processo, não temos uma vida inteira.
-Sim senhor. Farei isso. E quanto ao meu braço, é brincadeira mesmo né?
-Han. Faça o que eu te disse e tudo ficará bem.
-Sim senhor, sim senhor.
Com a pulga atrás da orelha o sr. Bournier pediu para a secretária ligar para o tenente Bastos.
-Boa tarde tenente.
-Boa tarde sr. Bournier. Que prazer ouvir a sua voz.
-Pare com essa bajulação barata, nós pagamos muito bem para você ficar agindo assim. Escute, eu tive uma visita muito desagradável hoje, um tal de sargento Miguel veio até aqui para fazer algumas perguntas,das quais eu já dei as respostas para o senhor. Escute bem, a ZAX cuida muito bem daqueles que lhe servem, mas cuida melhor ainda daqueles que não servem. Entendeu senhor tenente? Cuide desse sargento o mais rápido possível. ENTENDEU???
-Sim senhor, sim senhor
Depois de desligar o telefone o tenente bastos mandou alguns capangas darem cabo da minha vida naquela noite mesmo.
Será que o sargento vai conseguir sair dessa vivo? Como ele fará para se livrar da morte certa?
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21 de novembro de 2012
"Nunca esqueça um amigo"
"Com um amigo se conquista uma verdadeira fortuna, mas com uma fortuna não se conquista um verdadeiro amigo."
Logo após a conversa com a ZAX, o tenente chamou seus capangas de confiança e lhes deu a ordem.
-Eu quero os soldados Max e Bruno e o cabo Severo aqui agora. Gritou Bastos da sua sala com os olhos vermelhos de raiva. Esse incherido está querendo me queimar, então ele verá agora quem é que sabe queimar melhor. Eu quero que vocês sigam o sargento Miguel agora mesmo, e quando ele estiver em um lugar sem testemunhas apaguem ele e ocultem o cadáver. O que vocês ainda estão fazendo aqui? Vão, vão, vão. Esses idiotas, sós os mantenho porque são tão burros que não questionam nada.
Quando estavam saindo da associação, o capitão Zenon achou esquisito a pressa dos soldados e do cabo que decidiu perguntar o que estava acontecendo, quando o soldado Max começou a falar.
-Boa tarde capitão. Nós estamos agora indo seguir o sargento Mig...
Ele foi interrompido pelo cabo que completou.
-O sargento Migrenbauer até a entrega do sashimi alemão para um russo chamado Joaquim Manoel.
-Desconfiado, o capitão não acreditou na estória sem pé nem cabeça.
Saíram apressados, e pelo GPS do aparelho telefônico acharam o sinal do meu aparelho telefônico, eu estava nos arredores da favela da ala leste avisando às famílias pobres para não ficarem por alí, pois os justiceiros iriam interrogar e até matar para saber quem teria matado o colega de farda.
Quando eu cheguei a algumas casas abandonadas e ouvi alguém me chamando
-Miguel, chegou a sua vez. Quem mandou procurar cabelo em oco.
-é em ovo, seu burro.
-Ah. O que importa ele vai morrer mesmo, não vai contar para ninguém mesmo, hahahahahahaha.
E ouviu-se um tiro que pegou de raspão no meu braço, na altura do coração. Imediatamente me joguei no chão e me abriguei atrás de uma varanda com uma pequena mureta que só me escondia se eu estivesse deitado, enquanto eles falavam:
-Miguelzinho bota a cabecinha para fora para eu brincar de tiro ao alvo. Vai ser rápido e sem dor.
Eu estava encurralado naquela casa e sem ninguém por perto para me ajudar, por um instante eu pensei em obedecê-lo, mas eu ainda tinha munição e decidi acabar com tudo o que tinha antes de me entregar àqueles covardes.
- Quem está aí? É o Max?
-Sim sou eu, mas como você sabe?
-Ninguém é tão burro assim: "cabelo em oco" né?
-Seu desgraçado você vai morrer agora
Então ele saiu de trás do muro em que se abrigava atirando, mas não contou quantas balas possuía o seu revolver calibre 40, e quando deflagou a última bala então eu levantei rapidamente e antes que os outros atirassem acertei-lhe um tiro no meio da testa e me joguei no chão novamente. Os outros desesperados saíram dos seus abrigos atirando, nesse momento pensei que tudo estava perdido, então me levantei fechei os olhos e comecei a atirar, quando as balas da minha pistola acabaram os dois capangas estavam mortos no chão há alguns metros de mim. Eu não estava acreditando naquela visão que eu estava tendo, foi quando uma cabeça se levantou na casa ao lado. A minha visão estava turva, ordenei que levanta-se as mãos senão eu atiraria, mas por um instante eu me esquecera que estava sem balas, apenas apontei a arma com medo que tivesse que atirar, pois seria impossível. Mas para a minha salvação era o capitão Zenon. Até hoje eu não sei quem matou o cabo Severo e o soldado Bruno, se foi eu ou o capitão, ou os dois. Ao se aproximar eu só consegui agradecer com um obrigado e desmaiei. Tinham acertado um tiro na minha barriga, e a essa altura eu tinha perdido muito sangue. O capitão, colocando em risco a sua própria vida, me levou para a sua casa e chamou um médico, amigo particular da sua família para cuidar de mim. Logo que recuperei os sentidos eu perguntei como ele soube o que estava acontecendo ali, então ele me contou:
- Assim que os capangas do tenente saíram eu percebi que algo errado estava acontecendo. Achei que seria melhor seguí-los para que outros justiceiros honestos não sofressem nas mãos de corruptos como eles. o tiroteio e os gritos chamaram a minha atenção, então me posicionei entre você e eles de forma que ninguém me visse, e logo que você ficou de pé e começou a atirar vi que não teria outra alternativa senão atirar também, não sei dizer se acertei alguém, mas gastei toda minha munição.
Para a minha sorte a bala atravessou meu corpo e não atingiu nenhum órgão vital. Durante dias ele cuidou de mim sem ninguém saber
-Obrigado meu amigo. Se não fosse você eu teria morrido naquele lugar. Devo-lhe a minha vida e a minha gratidão pelo risco que continua correndo por minha causa.
-Não se preocupe, por sua causa eu tenho orgulho de ser um justiceiro.
A amizade verdadeira salvou a vida do sargento Miguel. Mas o que acontecerá quando descobrirem que ele está vivo? Quem irá denunciá-lo?
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22 de novembro de 2012
" O dinheiro compra tudo"
"Quando o dinheiro substitui a vida, a ilusão reina sobre a razão,"
Depois de dois dias na casa do meu amigo, o clima começou a ficar frio entre eu e sra. Helga, esposa do capitão Zenon. Ela havia cuidado de mim durante esse período, mas eu tinha flagrado algumas conversas onde ela reclamava com o seu marido, acusando-o de estar acobertando um criminoso, e que isso não seria bom para a sua família. Ela sempre dizia que não tinha filhos porque não tinha dinheiro para pagar o tratamento e isso a deixava muito triste. "Isso não é justo", dizia ela discutindo com o marido. Eu não queria trazer problemas para eles, então decidi ir embora sem que eles soubessem. Dormi mal aquela noite. pensando em tudo que tinha acontecido até agora e na vida que eu tinha antes. Por alguns momentos eu pensei em desistir, livrar o meu irmão recém encontrado e ir morar com ele, afinal ele era tudo o que eu tinha na vida, e também porque ele possuía uma família e precisava sustentá-la, mas e os ferimentos causados pelos justiceiros certamente lhe trariam muita dificuldade na lida do dia-a-dia. Contudo, foi só um dos pensamentos que tive naquela noite. O grito das pessoas violentadas pelos homens que as deveriam proteger, ecoavam na minha cabeça sem parar. Ainda era madrugada quando acabei de arrumar as minhas coisas para ir embora, quando ouvi um barulho na sala, e antes que eu pudesse averiguar, a porta foi arrombada por homens tão fortes que não precisavam fazer força, bastava encostar o corpo na porta que ela viria a baixo, imediatamente uma multidão de justiceiros invadiu o quarto ordenando:
-Deite-se no chão, agora.
-Tudo bem, eu não estou armado e estou ferido.
Mesmo assim fui jogado no chão com tanta força que meu ferimento começou a sangrar. Fui levado para a sala onde estavam sentados sra. Helga e o capitão Zenon sob a guarda de homens mal encarados. Sem entender como eles tinham descoberto meu paradeiro, perguntei :
-O que está acontecendo aqui?
-Enquanto a multidão abriu alas para a chegada de alguém, eu olhava para o rosto do capitão e sua esposa com a imensa tristeza de ter provocado aquilo. A sra. Helga de cabeça baixa e o capitão sereno, não diziam nada. Decidi assim quebrar o silêncio.
-Eu peço perdão por tudo isso.
Helga levantou o rosto lentamente, olhou nos meus olhos e disse:
-Não precisa dizer mais nada, você não trouxe problema nenhum, pelo contrário ao denunciar você, eu ganhei o direito de fazer a cirurgia que me possibilitará engravidar e concretizar o meu sonho.
-Cale a boca sua ingênua medíocre, não está vendo que nenhum de nós sairá daqui vivo. Falou o Capitão com sua voz firme, porém sem gritar.
Continuou a mulher a falar com ar de superioridade.
-No dia em que o Sargento Miguel apareceu aqui ferido, e você pediu ao doutor que viesse até aqui atendê-lo, percebi que algo estava errado. Enquanto vocês estavam no quarto eu recebi uma ligação do tenente Bastos perguntando por você, então disse para ele o que estava acontecendo aqui. Ele me pediu para que o mantivesse informado que ele me recompensaria com a cirurgia que eu tanto queria, portanto Zenon, fique calmo eles só querem o Sargento Miguel.
-Filha mesmo que ele fosse um criminoso,mas não é, ele mereceria uma chance de se defender, coisa que esses homens não farão. Você não tinha esse direito.
-Se eu fosse depender de você para ter um filho eu continuaria sem filhos para sempre.
-Se nós não tivemos filhos foi porque Deus não quis.
-Não importa a vontade de Deus, importa a minha vontade.
-A sua vontade ainda vai nos matar mulher.
Nesse momento chegou o tenente Bastos com um sorriso de batalha vencida no rosto dizendo:
-Ora, ora, ora. Enfim a dupla dinâmica. (palmas) Que show vocês aprontaram hein. Só me digam uma coisa foram vocês que mataram os soldados Viegas, Max e Bruno e o cabo Severo?
Tentando livrar o capitão de qualquer culpa eu disse:
-O capitão não tem culpa alguma, eu matei a todos.
- Muito bem. Eu gosto da verdade, mas infelizmente eu não posso matá-lo agora vingando esses homens, alguém quer falar com você na ZAX, e deve ser sério porque a ordem veio de cima. Então vamos embora. Homens, levem o sargento com cuidado, tenho ordens para levá-lo em segurança, acho que você mexeu com pessoas perigosas que querem acabar com você pessoalmente. Vamos.
-Espere tenente. E a minha recompensa? Dizia a sra. Helga.
- Ah sim. Soldado, dê a recompensa da mulher.
Um soldado com jeito de carrasco medieval sacou o revolver calibre 40 rapidamente e atirou na cabeça da gananciosa que permaneceu sentada depois de morta. Assustado, olhei para o capitão que estava com um olhar de dever cumprido, e fechando os olhos lentamente esperava o disparo da arma. Também fechei os olhos e apenas ouvi o disparo. Logo fui puxado por um soldado em direção a uma van blindada, típica dos justiceiros.
Eu não sabia o que me aconteceria ,mas estava certo que, daquele ponto, eu não poderia mais voltar atrás. As mortes do meu pai e do meu grande amigo capitão Zenon não poderiam ser em vão.
O que a ZAX quer com o sargento Miguel? Será que o próprio presidente quer executá-lo?
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23 de novembro de 2012
“O encontro”
“Algumas surpresas
nos chocam um dia, outras, uma vida inteira”
Os pensamentos voam quando o incerto nos espera,
principalmente quando esse incerto é quase certo de ser ruim. E ainda conseguia
fazer jogos de palavras com isso. Eu não sabia o que aconteceria quando
chegasse na ZAX, mas eu tinha certeza de que não seria uma festinha de
aniversário surpresa. Quando chegamos os seguranças da Firma me acompanharam para uma sala limpa, branca como neve, com duas cadeiras e uma mesa com uma garrafa d´água e dois copos. Os justiceiros foram para a associação, afinal, nem todas as famílias tinham saído da ala leste e eles precisavam fazer o restante da desapropriação para a instalação da novo laboratório para clonagem de humanos com o objetivo de fornecer órgãos para os ricos que esperavam para mudar-se para o planeta Hope.
Meu ferimento continuava sangrando e eu tinha perdido muito sangue, por isso, estava um pouco atordoado. Não demorou muito e dois homens entraram na sala, e ainda de pé, um deles falou:
-Bom dia senhor sargento. O senhor se lembra de mim?
-Sim o senhor é o pau mandado do chefão maluco.
-Que palavriado é esse sargento? Estamos aqui para que o senhor conheça alguém muito importante. Por favor, sente-se senhor Silva.
Um homem jovem, com um pouco mais de 30 anos sentou-se em minha frente e não pude acreditar que era o presidente da ZAX, mas alguma coisa nele me era familiar, como eu estava atordoado não pude confiar nos meus olhos, e então comecei a perguntar para não perder tempo, pois cada minuto que eu demorava a fazer algo mais vidas poderiam ser perdidas.
-Porque a ZAX quer acabar com os pobres? Porque vocês pagam propina aos justiceiros? Quem irá realmente para o planeta Hope?
-Calma, calma, calma.
-Vou responder todas as suas perguntas. Antes, quero te fazer apenas uma. Tudo bem?
-Sim tudo bem.
-Você realmente não me conhece?
-Não senhor.
Nesse momento o senhor Silva sorriu e pediu para que o sr. Bournier, o relações públicas, saísse e esperasse do lado de fora da sala. Quando estávamos completamente sozinhos, ele pegou o meu braço, levantou a manga que o cobria, identificou uma cicatriz, sorriu e disse:
-Essa cicatriz foi de uma briga pouco antes do seu pai morrer. Você foi defender um de seus dois irmãos de alguns meninos que queriam bater nele, e acabou levando uma surra, quando um dos meninos jogou uma pedra no rosto do seu irmão você desviou-a com o braço causando-lhe essa cicatriz. Eu nunca me esquecerei disso.
Por um instante o mundo parou, meu coração começou a bater mais forte, as minhas mãos começaram a tremer e quase sem conseguir falar eu perguntei:
-Por favor, qual é o seu nome?
-Eu me chamo Rafael Silva.
Sem exitar lancei-me ao seu pescoço com um abraço fraterno. Não pude controlar as lágrimas e o choro contido por todos aqueles anos de distância.
-Meu Deus, eu não posso acreditar, depois de 28 anos eu encontrei o irmão que faltava, exatamente no momento que eu pensei que iria morrer eu nasci de novo. Meu irmão, eu estou muito feliz por vê-lo bem.
Com emoção, porém contida, por causa dos guardas do lado de fora o presidente falou:
-Estou feliz em vê-lo, mas não foi a primeira vez nesses 28 anos. Lembra que você foi na ZAX para falar com o presidente?
-Sim, lembro.
-Eu estava lá, mas quando te vi através da câmera, não consegui recebê-lo, então pedi ao meu assistente para atendê-lo, enquanto eu observava em uma sala de segurança anexa.
-Isso justifica tanta puxação de saco do sr. Bournier.
-Hehehehe, ele é assim mesmo. Mas é um bom homem, ele daria a vida por mim. Mas, você disse que eu era o irmão que faltava. Você encontrou o Gabriel?
-Sim, eu encontrei, ele foi espancado pelos justiceiros e até perdeu um olho nessa surra. Agora mesmo ele está na carceragem da associação, eu iria tirá-lo de lá, mas armaram uma emboscada para mim, onde levei um tiro, o capitão Zenon me salvou, mas acabou morrendo por isso.
-A morte do capitão não estava nos planos, mas aquele tenente Bastos tem um espírito sanguinário. Eu estou de olho em você desde o dia que te vi na ZAX e quando soube que o tenente queria te matar então emiti um aviso de que queria você vivo. Bem, não temos muito tempo então vou dizer o que farei, Miguel, Miguel,...
Por uns instantes perdi os sentidos e quase desmaiei, mas Rafael me segurou e me mandou ficar firme porque queria me passar algumas informações importantes, então juntei as últimas forças e abri os olhos.
-Miguel, escute bem, mandarei cuidarem do seu ferimento, tirarei você daqui e o Gabriel da associação, mandarei vocês para um lugar seguro a escolha dele, e para todos você estará morto. Miguel, Miguel,...
Nesse momento perdi totalmente os sentidos.
Que surpresa hein? O que você faria se descobrisse que a presidenta do Brasil é sua irmã? Veja no próximo episódio o que irá acontecer com o nosso herói.
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24 de novembro de 2012
"A recuperação"
Sonhei que eu estava com meus irmãos brincando em um campo de futebol próximo a uma casa que morávamos quando éramos pequenos. Foram os poucos momentos alegres que tivemos juntos naqueles dias difíceis, mas a sensação foi tão boa que por alguns instantes alegrei-me como há muito não me alegrava. Acordei com o meu irmão Gabriel do meu lado e a sua esposa e seus filhos no outro quarto, eu abri os olhos, ele estava lendo, levantei o braço e o segurei pelo ombro, ele levantou num pulo só gritando:
-Que susto Miguel, assim você me mata.
Todos vieram ver o que estava acontecendo, pois ficaram assustados com o grito do meu irmão.
Ele se aproximou, me deu um abraço forte que quase me sufocou, tanto que tive que pedir para não apertar tanto por causa do ferimento. Perguntei o que tinha acontecido, pois eu estava falando com Rafael e desmaiei no meio da conversa.
-Peraí, você encontrou o Rafael?
-Sim eu encontrei.
-Então? Onde ele está? Eu quero vê-lo, aliás eu quero conhecê-lo, quando nos separamos eu tinha apenas 2 anos.
-Desculpe Gabriel, mas ele não pode nos ver agora, mas eu prometo que logo nos reuniremos e assim poderemos saber o que de fato queremos da vida. Mas, me conte o que aconteceu enquanto eu estava apagado.
-Meu irmão, foi uma loucura, eu estava na enfermaria da associação, quando dois homens vestidos de preto chegaram me procurando, morri de medo achando que eles iriam me levar para outro lugar afim de me matar, mas estava tão debilitado que não resisti. Eles perguntaram onde eu morava, falei que morava na ala norte, pois fiquei com medo de falar onde era realmente para não fazerem mal à minha família. Depois que eles me falaram que estavam com meu irmão no carro, eu perguntei qual, mas eles não sabiam o nome, só que deviam levá-lo até mim e depois para onde eu dissesse. Então falei que tinha mentido por medo e falei onde era realmente. Chegando lá, eles disseram que era para eu pegar as minhas coisas pois iríamos para outro lugar mais seguro e me trouxeram para essa casa nas terras altas na ala oeste. Deixaram uma quantidade de água suficiente para cuidar dos nossos ferimentos e alimentar nossa família, e não falaram mais nada porque não sabiam.
-E quanto tempo faz isso?
-Hummmmm, uma semana.
-7 dias?
-Seis dias e meio, ainda são 12:34h. Você ficou mal por alguns dias, algum médico açougueiro deixou um pedaço de tecido dentro do seu ferimento e fez com que infeccionasse, como eu fiz um curso de enfermagem e trabalhei como voluntário no hospital da ala leste, aprendi algumas coisinhas, principalmente de cuidar de pacientes sem muito equipamento e medicamentos, a natureza é nossa aliada, você sabia, muitas ervas, raízes, flores e folhas podem fazer milagres, basta saber o que e como usar.
Essa frase ficou na minha cabeça "o pouco que ainda resta pode fazer milagres".
Ainda debilitado continuei na cama vivendo com o auxílio do meu irmão, minha cunhada e meus sobrinhos, isso para mim era tudo, afinal eu pensava que estava só neste mundo condenado a destruição, agora eu tenho uma família que me impulsiona a lutar pela salvação deste planeta, e se ele pode curar vidas como a minha então ele também pode curar-se.
Comecei a pesquisar sobre as reservas naturais da terra e como cultivá-las. Estudei tudo sobre preservação da natureza e como replantar áreas devastadas pelas fábricas da ZAX. Pesquisei como restaurar a camada de ozônio e como reaproveitar o lixo produzido pela população. Aprendi como cuidar das águas poluídas e como educar o povo para não destruírem a terra. Sei que não aprendi tudo, mas aqueles dias de recuperação me fizeram entender mais sobre o nosso mundo e a amá-lo.
Será que tudo ficará bem agora? Será que o único problema de Miguel é o tenente Bastos? Será que a terra vai aguentar mais tempo?
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Meu ferimento continuava sangrando e eu tinha perdido muito sangue, por isso, estava um pouco atordoado. Não demorou muito e dois homens entraram na sala, e ainda de pé, um deles falou:
-Bom dia senhor sargento. O senhor se lembra de mim?
-Sim o senhor é o pau mandado do chefão maluco.
-Que palavriado é esse sargento? Estamos aqui para que o senhor conheça alguém muito importante. Por favor, sente-se senhor Silva.
Um homem jovem, com um pouco mais de 30 anos sentou-se em minha frente e não pude acreditar que era o presidente da ZAX, mas alguma coisa nele me era familiar, como eu estava atordoado não pude confiar nos meus olhos, e então comecei a perguntar para não perder tempo, pois cada minuto que eu demorava a fazer algo mais vidas poderiam ser perdidas.
-Porque a ZAX quer acabar com os pobres? Porque vocês pagam propina aos justiceiros? Quem irá realmente para o planeta Hope?
-Calma, calma, calma.
-Vou responder todas as suas perguntas. Antes, quero te fazer apenas uma. Tudo bem?
-Sim tudo bem.
-Você realmente não me conhece?
-Não senhor.
Nesse momento o senhor Silva sorriu e pediu para que o sr. Bournier, o relações públicas, saísse e esperasse do lado de fora da sala. Quando estávamos completamente sozinhos, ele pegou o meu braço, levantou a manga que o cobria, identificou uma cicatriz, sorriu e disse:
-Essa cicatriz foi de uma briga pouco antes do seu pai morrer. Você foi defender um de seus dois irmãos de alguns meninos que queriam bater nele, e acabou levando uma surra, quando um dos meninos jogou uma pedra no rosto do seu irmão você desviou-a com o braço causando-lhe essa cicatriz. Eu nunca me esquecerei disso.
Por um instante o mundo parou, meu coração começou a bater mais forte, as minhas mãos começaram a tremer e quase sem conseguir falar eu perguntei:
-Por favor, qual é o seu nome?
-Eu me chamo Rafael Silva.
Sem exitar lancei-me ao seu pescoço com um abraço fraterno. Não pude controlar as lágrimas e o choro contido por todos aqueles anos de distância.
-Meu Deus, eu não posso acreditar, depois de 28 anos eu encontrei o irmão que faltava, exatamente no momento que eu pensei que iria morrer eu nasci de novo. Meu irmão, eu estou muito feliz por vê-lo bem.
Com emoção, porém contida, por causa dos guardas do lado de fora o presidente falou:
-Estou feliz em vê-lo, mas não foi a primeira vez nesses 28 anos. Lembra que você foi na ZAX para falar com o presidente?
-Sim, lembro.
-Eu estava lá, mas quando te vi através da câmera, não consegui recebê-lo, então pedi ao meu assistente para atendê-lo, enquanto eu observava em uma sala de segurança anexa.
-Isso justifica tanta puxação de saco do sr. Bournier.
-Hehehehe, ele é assim mesmo. Mas é um bom homem, ele daria a vida por mim. Mas, você disse que eu era o irmão que faltava. Você encontrou o Gabriel?
-Sim, eu encontrei, ele foi espancado pelos justiceiros e até perdeu um olho nessa surra. Agora mesmo ele está na carceragem da associação, eu iria tirá-lo de lá, mas armaram uma emboscada para mim, onde levei um tiro, o capitão Zenon me salvou, mas acabou morrendo por isso.
-A morte do capitão não estava nos planos, mas aquele tenente Bastos tem um espírito sanguinário. Eu estou de olho em você desde o dia que te vi na ZAX e quando soube que o tenente queria te matar então emiti um aviso de que queria você vivo. Bem, não temos muito tempo então vou dizer o que farei, Miguel, Miguel,...
Por uns instantes perdi os sentidos e quase desmaiei, mas Rafael me segurou e me mandou ficar firme porque queria me passar algumas informações importantes, então juntei as últimas forças e abri os olhos.
-Miguel, escute bem, mandarei cuidarem do seu ferimento, tirarei você daqui e o Gabriel da associação, mandarei vocês para um lugar seguro a escolha dele, e para todos você estará morto. Miguel, Miguel,...
Nesse momento perdi totalmente os sentidos.
Que surpresa hein? O que você faria se descobrisse que a presidenta do Brasil é sua irmã? Veja no próximo episódio o que irá acontecer com o nosso herói.
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24 de novembro de 2012
"A recuperação"
"O ser humano é como uma árvore, ele precisa ser cuidado para produzir frutos."
Sonhei que eu estava com meus irmãos brincando em um campo de futebol próximo a uma casa que morávamos quando éramos pequenos. Foram os poucos momentos alegres que tivemos juntos naqueles dias difíceis, mas a sensação foi tão boa que por alguns instantes alegrei-me como há muito não me alegrava. Acordei com o meu irmão Gabriel do meu lado e a sua esposa e seus filhos no outro quarto, eu abri os olhos, ele estava lendo, levantei o braço e o segurei pelo ombro, ele levantou num pulo só gritando:
-Que susto Miguel, assim você me mata.
Todos vieram ver o que estava acontecendo, pois ficaram assustados com o grito do meu irmão.
Ele se aproximou, me deu um abraço forte que quase me sufocou, tanto que tive que pedir para não apertar tanto por causa do ferimento. Perguntei o que tinha acontecido, pois eu estava falando com Rafael e desmaiei no meio da conversa.
-Peraí, você encontrou o Rafael?
-Sim eu encontrei.
-Então? Onde ele está? Eu quero vê-lo, aliás eu quero conhecê-lo, quando nos separamos eu tinha apenas 2 anos.
-Desculpe Gabriel, mas ele não pode nos ver agora, mas eu prometo que logo nos reuniremos e assim poderemos saber o que de fato queremos da vida. Mas, me conte o que aconteceu enquanto eu estava apagado.
-Meu irmão, foi uma loucura, eu estava na enfermaria da associação, quando dois homens vestidos de preto chegaram me procurando, morri de medo achando que eles iriam me levar para outro lugar afim de me matar, mas estava tão debilitado que não resisti. Eles perguntaram onde eu morava, falei que morava na ala norte, pois fiquei com medo de falar onde era realmente para não fazerem mal à minha família. Depois que eles me falaram que estavam com meu irmão no carro, eu perguntei qual, mas eles não sabiam o nome, só que deviam levá-lo até mim e depois para onde eu dissesse. Então falei que tinha mentido por medo e falei onde era realmente. Chegando lá, eles disseram que era para eu pegar as minhas coisas pois iríamos para outro lugar mais seguro e me trouxeram para essa casa nas terras altas na ala oeste. Deixaram uma quantidade de água suficiente para cuidar dos nossos ferimentos e alimentar nossa família, e não falaram mais nada porque não sabiam.
-E quanto tempo faz isso?
-Hummmmm, uma semana.
-7 dias?
-Seis dias e meio, ainda são 12:34h. Você ficou mal por alguns dias, algum médico açougueiro deixou um pedaço de tecido dentro do seu ferimento e fez com que infeccionasse, como eu fiz um curso de enfermagem e trabalhei como voluntário no hospital da ala leste, aprendi algumas coisinhas, principalmente de cuidar de pacientes sem muito equipamento e medicamentos, a natureza é nossa aliada, você sabia, muitas ervas, raízes, flores e folhas podem fazer milagres, basta saber o que e como usar.
Essa frase ficou na minha cabeça "o pouco que ainda resta pode fazer milagres".
Ainda debilitado continuei na cama vivendo com o auxílio do meu irmão, minha cunhada e meus sobrinhos, isso para mim era tudo, afinal eu pensava que estava só neste mundo condenado a destruição, agora eu tenho uma família que me impulsiona a lutar pela salvação deste planeta, e se ele pode curar vidas como a minha então ele também pode curar-se.
Comecei a pesquisar sobre as reservas naturais da terra e como cultivá-las. Estudei tudo sobre preservação da natureza e como replantar áreas devastadas pelas fábricas da ZAX. Pesquisei como restaurar a camada de ozônio e como reaproveitar o lixo produzido pela população. Aprendi como cuidar das águas poluídas e como educar o povo para não destruírem a terra. Sei que não aprendi tudo, mas aqueles dias de recuperação me fizeram entender mais sobre o nosso mundo e a amá-lo.
Será que tudo ficará bem agora? Será que o único problema de Miguel é o tenente Bastos? Será que a terra vai aguentar mais tempo?
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25 de novembro de 2012
"A terra reclama e a humanidade pede socorro"
"Atender a uma necessidade colocando em riso sua própria vida, caracteriza o verdadeiro herói."
Acordei num sábado pela manhã e senti um pouco de falta de ar, pensei que fosse por causa do ferimento, mas quando saí de casa percebi, que algumas flores estavam murchas e o cheiro de enxofre enchia as minhas narinas dificultando a respiração. Liguei o rádio para ouvir as notícias matinais e um alerta estava sendo emitido, dizendo:
-Atenção Senhoras e senhores. Devido a baixa umidade do ar e em virtude das contínuas erupções vulcânicas, a taxa de dióxido de enxofre está muito alta. O uso de máscaras é aconselhado para quem sair à rua. Mudas de de cactus para o auxílio na purificação do ar estão a disposição da população na unidade de preservação da vida ZAX, na ala oeste. Somente uma planta para cada família.
Por sorte eu tinha guardado a minha máscara contra gases letais e pude sair a rua para ver o que estava acontecendo sem ser reconhecido. Deixei meu irmão em casa com sua família, pois seu filho mais novo está com dificuldade de respirar, temo pela sua vida, já que me apeguei muito nesses dias que passamos juntos, mas meu irmão Gabriel é enfermeiro e sabe o que fazer nessas ocasiões. Logo que saí, vi animais de grande porte, como cavalos e vacas, caídos no pasto quase à morte por não conseguirem respirar. As pequenas plantações de uso doméstico, ressequidas pela baixa umidade demostravam uma paisagem árida e desértica. As coisas não estavam boas e eu acreditava que o fim estava muito próximo.
A medida que eu andava pelas ruas a visão do caos me oprimia o coração. eu não conseguia conter as lágrimas quando mães impotentes choravam a perda dos seus filhos recém nascidos diante do assassino impiedoso que é o ar contaminado. Elas batiam no peito e diziam:
-Porque não eu? Porque não eu?
E choravam sem parar por causada dor de perder a sua cria, a garantia de um mundo melhor.
Os justiceiros estavam nas ruas para recolher os corpos e para passar a mensagem gravada pela ZAX que "está tudo bem, não há necessidade de pânico, porque a unidade de preservação da vida está tomando providências".
Grandes torres no passado haviam sido instaladas para vigiarem os quatro cantos da fábrica e andando pela ala oeste pude vê-las, mas essa visão não foi apenas contemplativa, ela foi providencial. Eu tive uma idéia a partir das minhas leituras recentes sobre preservação da vida humana e precisava falar com alguém. Voltei para casa correndo, ou pelo menos eu tentava, pois eu precisava tomar uma providência rápida, senão mais pessoas poderiam morrer. Quando cheguei em casa quase sem ar, transpirando muito e quase desmaiando, meu irmão muito assustado me viu quase desfalecendo e me segurou antes que caísse e me machucasse. Logo que recobrei o fôlego, pedi folha e lápis para explicar o plano para Gabriel. Desenhei e comecei a explicar:
-Irmão, por favor me ouça com atenção porque eu não posso me expor às autoridades já que todos pensam que eu estou morto. Você conhece a torre de vigia da ala oeste.
-Sim conheço, mas ela está desativada há muito tempo.
-Sim eu sei, mas o que eu quero te mostrar não envolve vigias, mas sim grandes borrifadores de água que a cada meia hora borrifarão água o suficiente para umidificar o ar e voltaremos a respirar sem dificuldade. O que você acha?
-Eu acho que você está louco em pensar que alguém te dará ouvidos.
-A mim não, a você.
-O quê? Agora sou eu quem dirá que você está louco. É claro que eu não irei.
Ele dizia isso porque tinha uma família para tomar conta e o medo de morrer e deixá-los sozinhos era demais para ele, era aterrorizante.
Então eu disse algumas verdades:
-Veja bem seu covarde. Disse isso com firmeza e com a grosseria típica de um justiceiro.
-Olhe para o seu filho agora. Ele está com tanta dificuldade de respirar que eu ficarei feliz se ele durar até amanhã. E digo isso com um aperto enorme no coração sendo tio, imagino você como pai. Gabriel todos nós dependemos de você.
Naquele momento vi brotar de dentro do meus irmão uma força que eu só vi em poucos homens, mas o amor de um pai ruge mais alto que um leão faminto.
-Tubo bem, me explique tudo, que eu irei agora mesmo na ZAX sugerir a solução.
-Eu sei que essa solução não será para sempre, mas algumas vidas serão salvas, mesmo que eu salvasse somente uma já seria o suficiente para justificar o nosso esforço. Então pegue esses desenhos e leve para a unidade de preservação da vida e diga que no armazém dos justiceiros existem alguns borrifadores gigantes criados para serem utilizados em controle de grandes multidões borrifando gás do sono. Diga também que você os viu quando esteve preso na cadeia da associação que fica ao lado dos armazéns.
- Tudo bem irmão, eu irei agora.
Ele tomou fôlego, pos a sua máscara e partiu, embora nós soubéssemos que não era do feitio da ZAX deixar escapar pessoas que fizessem demostração de inteligência, pois representavam perigo a soberania dos tiranos. O seu amor pela família falava tão alto que ele não conseguia ou vir a voz do medo.
Duas horas depois ele estava na ZAX explicando para os responsáveis a sua (a minha) ideia. Por sorte os funcionários tinham parentes na ala oeste, então encaminharam a idéia para o setor de inteligência que ordenou que o cientista aguardasse que um carro o iria buscá-lo para falar sobre o seu invento.
Um frio subiu pela espinha de Gabriel que tremeu com medo de não voltar mais para casa. Não demorou e uma van blindada preta chegou a unidade, isso não trouxe boas lembranças ao meu irmão, então ele fechou os olhos, lembrou do rosto do seu filho buscando o ar e não achando, com dificuldade até de falar Papa... e entrou no carro lembrando de quando foi espancado até quase morrer em uma van como aquela da ZAX, nesse momento ele pôde deduzir quem tinha dado aquelas vans aos justiceiros, mas isso não importava no momento, o mais importante era explicar a idéia para resolver o problema de respiração de todos. Quando chegaram ao setor de inteligência uma equipe especializada em planos emergenciais já estava a postos, e um cientista perguntou: Qual é o plano?
Depois de explicar tudo ele teve que esperar. Enquanto isso aguardávamos em casa o retorno de Gabriel. Chegou a noite mas meu irmão não chegava, a sua esposa não falava nada, mas o seu olhar penetrante me condenava de ter matado o seu marido, o meu irmão. Essa dor também me consumia o peito. À noite melhorou um pouco, mas a ausência do meu companheiro me martirizava, por isso não consegui dormir pensando no que iria fazer se ele não chegasse. Pensei até em invadir a ZAX para tirá-lo de lá. Mas, e se ele já estivesse morto? Enfim eu não queria pensar nisso.
A manhã do dia seguinte chegou, mas meu irmão não. Eu já conseguia ouvir o choro de sua esposa que tentava esconder a sua tristeza, mas ela tinha que ser forte, pois possuía dois filhos para criar.
Naquela manhã o sol estava mais forte, além do problema da baixa umidade do ar, o enxofre ainda estava sendo acrescentado o problema do calor. Pensei desconsolado, hoje muitos morrerão, e não serão somente as crianças, mas adultos também, e a essa altura eu temia por minha vida também. Às 11 horas da manhã fez-se um grande silêncio até as 12 horas, pensei que todos haviam morrido, quando uma sirene tocou no alto da torre e uma nuvem de água encheu o céu da ala oeste como uma chuva, muitos ficaram com medo, pois não sabiam o que era isso, e então correram para as suas casas, mas quando sentiram o frescor e o alívio no ato de respirar saíram de suas casas cantando e pulando. O medo da morte recuara por um momento e o sorriso de felicidade por poder viver mais um pouco estava estampado no rosto de cada um deles. Mas em um rosto o sorriso não foi encontrado, era o rosto da mulher do meu irmão. Enquanto todos pulavam de alegria ela apenas olhava para os filhos brincando com a nuvem e respirava fundo. Eu observava o seu rosto sério e compenetrado quando um sorriso começou a se esboçar e fiquei muito confuso, olhei para o outro lado e vi meu irmão vindo em nossa direção com um sorriso de dever cumprido. Como um ex-combatente voltando para casa depois de ter vencido uma batalha. Corremos em sua direção e o abraçamos como nunca abraçamos antes, era como se ele tivesse morrido e ressuscitado e agora estava no nosso meio. Nesse dia ele foi o grande herói.
A humanidade foi salva por algum tempo. Mas e as outras alas? A terra ainda está morrendo. Como salvá-la?
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26 de novembro de 2012
"A esperança floresce"
"O cultivo de uma planta faz com que ela cresça e apareça."
Gabriel ainda estava sob o efeito do medo que sentira no setor de inteligência da ZAX, por isso dormiu a tarde toda depois de tomar um calmante feito à base de camomila, erva cidreira e maracujá. Quando acordou, já era noite, e nos reunimos para jantar em família. O seus filhos estavam radiantes, afinal o seu pai era o herói de verdade que morava com eles, a sua esposa estava feliz em tê-lo em casa mas sabia que aquela atitude traria responsabilidades que lhe tomaria tempo, tempo esse que ele não estaria com ela, isso a deixava preocupada. Enquanto estávamos jantando alguém bateu a porta chamando:
-Senhor Gabriel, senhor Gabriel.
Ficamos em silêncio pensando que fosse o setor de inteligência procurando o meu irmão para desaparecer com ele. Como não tínhamos como fugir, fui atender a porta.
-Pois não, em que posso ajudá-la?
-Eu procuro o sr. Gabriel. Ele está?
perguntou uma senhora muito simpática com um sorriso agradecido do rosto. Ela trazia consigo dois tomates.
-Por favor, eu preciso falar com o sr. Gabriel. Ele está?
Perguntou novamente, mas dessa vez levantou a cabeça sobre o meu ombro para procurá-lo.
Sentindo que não havia perigo algum, virei-me para chamá-lo, mas ele já estava atrás de mim.
-Sim senhora, eu sou o Gabriel.
Respondeu meu irmão calmamente, como lhe era de costume.
A senhora o abraçou de uma forma tão carinhosa, que eu me lembrei dos abraços da minha mãe sempre que fazíamos algo que a agradasse profundamente. E disse:
-Louvado seja o Senhor Deus por sua vida meu filho. Meu sobrinho trabalha na unidade de preservação da vida da ZAX, aqui na ala oeste, e me disse o que você fez. Você não tem idéia do bem que nos proporcionou com sua atitude. Minha netinha estava respirando muito mal há dois dias, certamente ele não suportaria mais um dia naquela situação. Mas quando as sirenes tocaram ao meio dia eu sabia que eram as trombetas dos anjos anunciando que a providência de Deus estava a caminho. Depois daquela suave brisa, que se repetiu à tarde toda minha netinha melhorou. Agora ele está respirando melhor, ele até sorriu pra mim, isso foi tudo o que eu precisava para continuar lutando. Gabriel você é um anjo. Por favor, aceite esses dois tomates que eu colhi na minha horta.
Ela o beijou na testa e saiu falando alguma coisa, que eu não entendi, levantando aos mãos para o céu.
Quando estávamos fechando a porta, alguém chamou, era um homem muito forte e alto com uma bolsa a tira colo. Pensamos que nem tínhamos aproveitado aquele momento de alegria e a ZAX já tinha nos encontrado, então ele disse:
-Por favor. O senhor que é o Gabriel que estão falando por aí?
Ele respondeu olhando para mim.
-Bem, eu me chamo Gabriel, mas não sei se sou daquele que estão falando por aí.
-Foi o senhor que fez chover hoje?
-Não foi una chuva foi um...
O homem o interrompeu com um abraço forte que quase tirou o seu fôlego, era um abraço de gratidão. Depois de algum tempo em silêncio abraçado ao meu irmão, Gabriel o interrompeu, pois não aguentava tanta gratidão, era pelo menos cento e cinquenta kilos de pura gratidão e músculos.
-Tu-tu-tu-do be-ee-ee-m, ufffffff.
-Desculpe sr. Gabriel, mas eu estou muito agradecido ao senhor pelo que fez hoje. Eu sou o vereador responsável por essa ala. Éramos 35, mas como já não havia água para pagar os vereadores, somente eu fiquei para cuidar de toda essa gente humilde aqui. Fiquei sabendo do que o senhor fez, e queria agradecê-lo pessoalmente, e dizer que, o que eu puder fazer para ajudá-lo estarei às ordens. O que quer que seja, eu estarei pronto para ajudá-lo. Ah! Meu nome é Big John, e eu trouxe um litro de água com gás, eu estava guardando para uma ocasião especial, por isso, trouxe para o senhor, pois essa é uma ocasião muito especial, afinal o senhor trouxe esperança para o povo. Obrigado meu novo amigo.
Sem palavras, Gabriel apenas disse:
-Fiz o que tinha que ser feito.
Disse isso estufando o peito como se fosse o super-homem.
-Mas, e agora?
falou o homem com cara de quem queria ouvir algo do meu irmão.
-E agora o quê?
-E agora? O que o senhor pretende fazer depois dessa conquista?
Agora com o peito murcho e gaguejando.
-Con-con-conquista, éééééé, peraí. (virou-se para mim e perguntou) -E agora?
Por alguns instantes tive uma visão motivadora de pessoas fortalecidas com esperança e encorajadas com a presença de uma pessoa que enfrentou a ZAX pelo seu bem estar. Eu não poderia fazer isso, afinal, eu estava morto para os justiceiros, mas, meu irmão não. Essa era a nossa chance de mobilizar o povo para uma virada, a partir de cada família daquela ala. Então tomei a palavra e disse:
-Meu irmão está um pouco cansado, mas ele o procurará para falar sobre algumas idéias que ele tem para melhorar as condições de vida da nossa gente.
-Gostei dessa expressão "nossa gente".
Exclamou Big John ameaçando abraçá-lo novamente.
-Não, não, não ainda estou me recuperando no último abraço.
-He he he he, além de herói é brincalhão. Adeus meus amigos.
Despediu aquele homem grande e forte, mas com um coração tão bom quanto o de uma freira, por isso, passamos a chamá-lo de frei.
Meu irmão ficou assustado com o que eu disse, mas expliquei que ele seria meu porta voz para ajudar toda aquela gente sofrida, mas que estava pronta para dar a volta por cima. Aquela era a hora de fazer a planta da esperança germinar e se expandir por todo aquele lugar.
A esposa do meu irmão estava preocupada, e eu não podia culpá-la, isso implicaria em riscos. Mas riscos que representariam um futuro melhor para os seus filhos.
Fechamos a porta, e felizes por tudo que ouvimos voltamos a jantar, agora com a comida fria mas com uma saladinha de tomates com gosto de gratidão.
O povo começou a se despertar para o futuro. O que Miguel estará pensando? O que fará a esposa de Gabriel?
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27 de novembro de 20112
"A esperança toma forma"
"Basta uma centelha para colocar fogo em uma floresta."
Acordei no dia seguinte radiante, a minha noite tinha sido de um descanso profundo. Pensei em chamar Gabriel para planejarmos os próximos passos, mas ele ainda estava dormindo, e a julgar pelas batidas que dei na porta e ele continuava sem responder, acreditei que a noite devia ter sido cansativa. Mas, tudo bem, saí para caminhar pelas ruas e avaliar o que deveria fazer, com muito cuidado para não ser descoberto. Identifiquei alguns problemas que precisavam ser solucionados a curto, médio e longo prazo.
A saúde das pessoas era deficiente pela constante mudança de clima causada pelo efeito estufa acelerado, e também, por causa das condições sub-humanas de higiene. O esgoto corria a céu aberto onde as crianças brincavam descalças. Animais faziam sua necessidades fisiológicas nas ruas, onde os pedestres caminhavam para os seus afazeres diários. Pneus velhos e garrafas vazias enchiam os terrenos baldios, fazendo proliferar o mosquito causador da dengue. Os Jovens faziam sexo sem proteção e faziam uso de bebidas ilegais durante festas chamadas de "libertinas". A feira central, onde as pessoas trocavam água por alimentos, era um mal cheiro violento, por que os usuários não lavavam depois das suas atividades de troca, restos de hortaliças, sangue e partes dos corpos dos animais abatidos a céu aberto, fezes e urina humana de homens e mulheres que faziam suas necessidades nas paredes e atrás dos muros, enfim era o verdadeiro caos o que eles chamavam de civilização. Eu já tinha visto tudo aquilo, mas nunca com os olhos de alguém que quer transformar essa situação. Era simplesmente impossível modificar aquela realidade se todos não quisessem colaborar. Então, esbarrei no primeiro problema a ser vencido, motivar a população a querer sair daquele estado deplorável de vida humana. Voltei para casa desanimado diante de tamanho problema. Quando cheguei, meu sobrinho mais velho estava brincando de carrinho, gastei alguns minutos observando a brincadeira e aprendi uma lição importante, sempre que o carrinho se deparava com algum obstáculo, ele levava um bonequinho responsável pelas obras até o problema para resolvê-lo imediatamente, quando o carro quebrava, ele chamava o responsável pelos consertos e quando estava com fome, ele chamava o boneco responsável pela comida. Enfim, cada boneco resolvia o seu problema, e todos usufruíam dos serviços comuns sem sobrecarregar ninguém, com isso, a cidade do meu sobrinho de dez anos estava melhor do que a ala oeste atual. Depois de aprendida a lição dei um beijo de aprovação no jovem líder e fui almoçar com o Gabriel. Expliquei-lhe tudo o que tinha visto e tudo o que tinha aprendido com meu sobrinho. Ele ouviu atentamente cada palavra, mas no final ele perguntou:
-Irmão, você acha que isso dará certo mesmo? Eu estou com medo e quero desistir. Ontem a noite eu estava conversando com minha esposa sobre tudo isso, e ela me convenceu de que as crianças nunca ficarão seguras, teremos que nos privar de algumas coisas como passear juntos, levar para a escola, e visitar amigos.Sempre que alguém bater em nossa porta acharemos que é a ZAX tentando nos matar. E se os justiceiros com o tenente Bastos de encontrarem?
Interrompi os questionamentos e terminei a conversa com uma frase apenas:
-E se os seus filhos não tiverem mais o planeta terra para viver?
Ele se calou, olhou para esposa com um ar de questionamento e chamou-a
- Meu amor ele está certo, precisamos lutar contra esse inimigo, senão, nós e nossos filhos, nunca teremos paz nem um lugar para viver. Você está comigo nessa batalha pelos nossos filhos?
Ela balançou a cabeça de um lado para o outro, olhou para ele fixa e seriamente, esboçou um sorriso e disse:
-Meu amor, quando nos casamos eu prometi que estaria ao seu lado para o que der e vier, mesmo sem concordar com você. Então, você não irá se livrar de mim tão fácil assim. Irei com você por onde quer que fores.
Enquanto eles conversavam meu coração apertava mais, pois eu só confiava em Gabriel. Mas, tudo deu certo e o laço familiar foi reforçado com confiança, coragem e amor.
Conversamos durante muito tempo e decidimos que falaríamos primeiro com frei, isto é, Big John, sobre uma divisão de tarefas para as principais áreas de necessidade social como saúde, saneamento e limpeza, comércio e educação. Essas pessoas seriam indicadas pelo povo e a cada dois anos haveria uma nova votação decidindo pela sua permanência ou não. Em princípio os próprios moradores fiscalizariam as modificações e poderiam retirar qualquer líder se não fizesse um bom trabalho em assembléia de forma democrática. Os recursos para as melhorias seriam fornecidas pelos mesmos moradores.
Logo que falamos com Big John ele disse que haveria uma reunião com os anciãos (pessoas mais velhas, portanto mais sábias), naquele mesmo dia e nós estávamos convidados.
Quando a noite chegou eu já tinha tratado com Gabriel sobre tudo que deveria ser feito com detalhes, então fomos para a reunião, onde esperavam o herói Gabriel e as suas ações futuras. A reunião aconteceu na casa de Big John que nos apresentou como Gabriel e seu irmão, perfeito para quem não queria ser descoberto
Quando chegamos fomos recebidos pelo Big John com aquele abraço característico. Para a nossa surpresa quase toda ala oeste estava no pátio da casa. Fomos recebidos com aplausos e gritos de : "Vivas ao nosso herói, viva, viva,viva". Os olhos de Gabriel brilharam com a alegria do povo e seu entusiasmo por mudanças. Eu deixei escapulir uma lágrima, e quando perguntaram eu disse que era um cisco. Todas aquelas pessoas estavam motivadas pelo ato de coragem de Gabriel e estavam dispostas a fazer o que fosse necessário. Isso me deixou muito feliz.
Será que todos que estavam lá queriam mudanças? Tomara que nenhum deles seja espião da ZAX.
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28 de novembro de 2012
"Ouvidos traiçoeiros, boca traidora"
"Ao sair da zona de conforto o preguiçoso murmura."
-Entrem e alegrem-se conosco. Esta reunião tornou-se uma festa por causa da presença de vocês. Estão todos querendo conhecer o anjo Gabriel.
-Anjo? Mas quem disse isso? Perguntou meu irmão desconfiado.
-Ora, foi a dona Jupira.
-E quem é dona Jupira?
-É aquela senhora com a criança no colo.
Gabriel olhou fixamente tentando lembrar, pois já tinha visto aquele rosto em algum lugar.
-É aquela senhora que nos deu os tomates. Disse baixinho ao seu ouvido para que ela não soubesse que não tínhamos lembrado dela. Talvez não tenhamos gravado a fisionomia por causa do susto daquela noite.
Acenamos para ela, que já estava sorrindo para nós desde a hora que chegamos. Chegamos mais perto para agradecer os tomates e conhecer a sua netinha.
-Boa noite dona Jupira? Cumprimentou Gabriel.
-Boa noite anjo. Veja, essa é a minha netinha Janine que o senhor salvou. Dê um abraço no anjo minha filha.
Ela desceu do colo da avó, correu até Gabriel com seus lindos cabelos loiros encaracolados, pôs as mãos na cintura e disse:
-Obligado seu an-an-anjo.
E então abriu os braços, e Gabriel que já estava abaixado, recebeu o abraço mais carinhoso que alguém poderia receber, pois tinha sentimento de gratidão de um coração sincero. Ele se emocionou, mas se segurou, pois ainda tinha uma reunião pela frente. Ela voltou para a sua avó sorridente.
Mas, ao lado da dona Jupira tinha um homem muito sério que não parava de olhar meu irmão de cima a baixo. Perguntei ao John:
-Frei, digo, John. Quem é aquele homem ao lado da dona Jupira?
-Aquele é o Fred, ou Frederico, como quiser, ele é o pai da Janine. As crianças o chamam de Fred Krugher, aquele do filme de terror. Ha-ha-ha-ha.
Depois de falar me deu um tapinha nas minhas costas que quase me derrubou.
-Ok pessoal, a conversa está boa, mas , temos uma reunião para dar conta e todos estão entusiasmados com o que o senhor Anjo tem para nos falar.
Nos reunimos ao redor de uma grande mesa retangular, onde todos ouviam Gabriel falar como nunca tinha ouvido antes. O seu entusiasmo e eloquência era tamanho que até eu fiquei envolvido com suas palavras. Ele enfatizou a questão da eleição dos responsáveis pelas áreas de ação da ala, como saúde, saneamento e limpeza, comércio e educação. Essas 4 áreas deveriam ter ações imediatas. Ele pediu ao John que indicasse 4 pessoas para trabalharem nessas áreas com a supervisão dele mesmo. Mas ele retrucou:
-Nós podemos até votar hoje nessas pessoas, mas eu quero antes propor uma outra votação antes. Atenção pessoal, como único vereador da ala oeste e quero indicar o senhor Gabriel para ser vereador comigo.
-ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ. Foi a resposta do povo.
Gabriel ficou surpreso e disse gaguejando de nervoso:
-Ma-ma-ma-mas vocês nem me conhecem.
-Nós podemos não conhecê-lo por fora, mas por dentro, sabemos que você é um poço de coragem e bondade. E aí? Você aceita? Falou levantando as sombracelhas.
Meu irmão olhou para a sua esposa, que acenou aprovando, e olhou para mim que também aprovei.
-Quero agradecer o convite, mas, eu devo dizer que... (pausa) Para mim será um prazer trabalhar com vocês. Mas com uma condição, a de que todos trabalhem como fôssemos uma grande e unida família.
-ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ. Todos gritaram de alegria.
Dona Jupira pulou no pescoço do novo vereador dizendo:
-Eu sabia que você aceitaria, eu sabia. Eu sei que você tem no seu coração muito mais do que você mesmo pensa. Obrigada, e pode contar comigo para qualquer coisa.
-Calma gente, calma gente. Dizia John querendo continuar a reunião. Ainda temos que preencher as quatro vagas para o cargo de, o cargo de. De que vamos chamar os responsáveis mesmo? alguém gritou na multidão: "Secretários". Isso mesmo secretários.
Não demorou muito e muitos levantaram a mão para ajudar, mas como John conhecia muito bem o seu povo, e começou a delegar.
-Dona Jupira, como a senhora foi professora, eu a indico para o cargo de secretária da educação. A senhora aceita?
-Sim é claro!
-Quem concorda levante a mão.
A grande maioria levantou a mão e logo depois seguiram-se aplausos.
-Parabéns dona Jupira, eu a declaro secretária da educação.
Ela deu um sorriso largo e disse:
-Prometo que farei o meu melhor.
-Senhor Martinho, como o senhor é bombeiro hidráulico, eu o indico para a secretaria de saneamento e limpeza. O Senhor aceita?
-Sim, eu aceito sim sô.
-Quem concorda que o senhor Martinho assuma o cargo, diga sim.
-Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim.
Ele se levantou e vez uma leve reverência para o povo, agradecendo o voto de confiança.
-Para o cargo de secretária da saúde eu indico a dona Bete, que é enfermeira. A senhora aceita?
-Desculpe John, mas eu trabalho no posto de saúde, por isso não terei tempo para tratar de assuntos que demandem tempo. O posto já me deixa super atarefada. Mas prometo ajudar nas minhas folgas.
-Tudo bem Bete, eu entendo você.
Uma voz lá no meio disse:
-Eu me indico.
-Quem disse isso?
-Eu, Rosalina. Eu fui enfermeira por 25 anos e me aposentei, mas gostaria de ajudar na área que conheço bem.
-Ótimo dona Rosalina. Quem concorda diga :" eu ajudarei"
Em uníssono responderam : "Eu ajudarei"
-Muito bem, agora comércio. Senhor Nagib, eu indico o senhor, já que é o comerciante mais antigo da Ala.
-Posso ter uma comissão? Perguntou o senhor Nagib enrolando o bigode.
-Senhor Nagib!!! Exclamou John.
-Brincadeirinha, brincadeirinha. Aceito sim. Vamos organizar o mercado com barraquinhas numeradas de cor azul e vamos cobrar que cada comerciante limpe o lugar em que trabalha.
-Muito bem quem concor...
-Nagibe, Nagibe, Nagibe. Gritou o povo empolgado.
-Muito bem. Reunião encerrada. A próxima será amanhã, depois do jantar em suas casas. Hoje o jantar é por minha conta para comemorar o primeiro passo de uma longa caminhada. Olha só, até eu, tô falando bonito. Ha-ha-ha-ha. Seja Bem vindo Gabriel. Novamente Deu-lhe aquele abraço quebra-ossos.
Depois da reunião John ofereceu um banquete humilde, mas de muito bom coração. Todos se divertiram e já começaram a conversar sobre a reunião do dia seguinte. No final, o dono da casa teve que mandar todos para as suas casas porque já estava tarde.
Durante toda a reunião o Fred não tirou os olhos do meu irmão, achei estranho, mas poderia ser o meu lado justiceiro falando mais alto. Mas algo me dizia que eu deveria tomar cuidado com ele.
Fomos para casa, com as crianças dormindo. No caminho eu conversei com meu irmão.
-O que foi aquilo? Que motivação foi aquela?
-Foi a netinha da dona Jupira. Eu sempre quis ter uma menininha e quando a vi cheia de vida por causa do meu esforço eu me senti recompensado e motivado a fazer mais.
-Muito bem senhor vereador.
-Mas isso graças a você meu irmão. Obrigado por me ajudar a ajudar outras pessoas.
-Faço isso porque amo vocês.
-Obrigado irmão.
Naquela mesma noite o Fred, escreveu uma carta para o seu irmão que trabalha na ZAX, contando tudo o que aconteceu, dizendo que um tal anjo Gabriel estava tentando derrubar a ZAX na ala oeste,e que era para eles tomarem cuidado. Dizia também que tudo estava bem e que não precisava ter mudança alguma. Ele disse isso porque era preguiçoso e vivia as custas da sua mãe, e se ela trabalhasse ele teria que tomar conta da filha, já que a mãe da menina tinha morrido no parto, nos braços da sogra. Por isso, dona Jupira se sentia tão responsável pela memina.
Está tudo bem encaminhado. Mas será que o Fred vai conseguir parar o entusiasmo do povo?
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29 de novembro de 2012
"Velhos hábitos nunca se esquece."
" Prudência é a faca que corta sem sentir."
No dia seguinte saí, dizendo que faria uma caminhada, mas cautelosamente segui o Fred para ver o que ele faria depois de ter presenciado tudo aquilo no dia anterior à noite. Aquele olhar de esquilo que come a noz de olho no predador, parecia que ele estava ali para sondar o que estávamos fazendo. Poderia ser paranóia minha, por ter trabalhado prendendo marginais durante muito tempo. Mas, não custava nada mesmo, eu só precisava tomar cuidado com os justiceiros, ainda bem que eu trabalhava na ala norte e poucos me conheciam ali na oeste. Segui suspeito de longe para que ele não me visse e desviasse o caminho. Pouco a pouco ele foi mostrando para onde iria, para a unidade de preservação da vida da ZAX, onde trabalhava seu irmão, com um envelope na mão. Não demorou muito e ele entrou no escritório e saiu rapidamente, mas sem o envelope. Entrei para pegar alguns folhetos explicativos para ver com quem tinha ficado o envelope. Vi um homem muito parecido com o Fred abrindo o envelope e começando a ler. Antes que eu pudesse ver a sua reação, me deparei com o tenente Bastos entrando no escritório, virei para a parede rapidamente, mas pude perceber que ele estava usando um crachá da ZAX. Fiquei confuso, pois ele era um alto funcionário da associação dos justiceiros. Saí do escritório antes que ele me visse, mas em um olhar de relance ele me viu de perfil e me seguiu com os olhos como se estivesse lembrando de algo. Para os justiceiros eu estava morto, graças ao meu irmão Rafael que cuidou para que eu sumisse dos olhos dos justiceiros. Eu sabia que a hora que aquele papel caísse na mão dos justiceiros eles apareceriam na minha casa para averiguar. Eu precisava pensar no que fazer para proteger a minha família, mas não queria deixá-los preocupados antecipadamente.No retorno para casa, me dei conta de que não vi nenhum justiceiro na rua e isso me preocupou.
Quando cheguei em casa o almoço já estava pronto, enquanto comíamos eu conversava com Gabriel sobre a reunião da noite. Expliquei para ele tudo o que era necessário para que os secretários deveriam fazer na execução das suas funções. Sugeri também a criação do cargo de tesoureiro, mas que o John ficasse responsável durante o início dos trabalhos. Depois do almoço eu dormi um pouco e sonhei com um planeta lindo, com cachoeiras, árvores frutíferas, flores multicoloridas e animais gordos pastando nos verdes pastos. As crianças corriam e brincavam na grama fina e macia como um tapete, enquanto seus pais conversavam e sorriam alegremente. Acordei com Gabriel me chamando para a reunião. Quando chegamos lá, adivinha só quem estava lá. O Fred. Isso mesmo o dedo-duro do filho da ... dona Jupira. Novamente ele não tirava os olhos do Gabriel. Então eu dei a volta por trás dele para ver se ele estava armado, mas não estava, a única arma que ele tinha era a boca. Transportei uma cadeira por sobre a sua cabeça, e por querer esbarrei forte no alto da sua cabeça. Pedi desculpas, e desviei o seu olhar para mim. A reunião foi muito produtiva, todos os secretários levaram seus assistentes para colaborarem na liderança. Pensávamos que terminaria às 22:00 h, porém terminaram de de tratar o último assunto às 2:00h. Ainda bem que dessa vez as crianças não foram. Naquela noite eu não dormi, fiquei de guarda na sala de frente para aporta, eu não deixaria ninguém passar e agredir a minha família. Na manhã seguinte, chamei Gabriel e disse que teria que resolver alguns assuntos inacabados na ala norte.
Eu sabia que não teria sossego se continuasse fugindo como rato foge do gato. Aquela noite em claro tinha sido a primeira de muitas noites, com medo de que pessoas más nos causassem algum mal. Então eu decidi ir até associação dos justiceiros para saber o que estava acontecendo. Por que o tenente Bastos estava com um crachá da ZAX? Por que eu não estava vendo os justiceiros nas ruas? Para quem foi aquele relatório de o Fred entregou no escritório da ZAX? Enfim, são muitas perguntas e poucas respostas, mas eu precisava delas para continuar. Além disso eu tinha que garantir a segurança do Gabriel e sua família.
A ala oeste está se reestruturando, mas o resto do mundo de Miguel está um caos e ele precisa de respostas. Será que ele irá consegui-las? Será que ele irá arrumar outros problemas nessa busca?
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30 de novembro de 2012
"Nem tudo é conforme nós imaginamos."
"A vida nos prega peças, uma delas somos nós mesmos."
Saí da ala oeste muito cedo para evitar os justiceiros na rua, mas não seria necessário, pois não encontrei nenhum pela estrada. O ônibus velho que me levava, não possuía a porta de saída, somente a de entrada, os pneus eram tão carecas que se passasse por cima de uma formiga furava, os vidros tinham tanta poeira que parecia uma tinta vermelha por causa do barro da estrada. Pelo menos o motorista sabia dirigir, também, dirigindo todos o dias, uma hora ele teria que aprender.
Quando cheguei a ala norte, vi muitos cartazes de protesto do povo contra os justiceiros. A associação tinha sido pichada com a seguinte frase: "Quem mata não merece viver". Fiquei espantado com o que presenciei, mas não me intimidei e entrei na associação, não encontrei nenhuma pessoa conhecida, olhei para os seus rostos e percebi que eles estavam mais assustados comigo do que eu com eles, perguntei quem era o capitão, desconfiados eles apontaram para um homem sentado em uma mesa cheia de papel com as duas mãos na cabeça em sinal de preocupação. Bati a sua porta sob olhares curiosos, mas quando vi o novo capitão fiquei muito feliz, era um jovem que eu tinha treinado, ele me ajudou muito na captura de jovens que traficavam bebidas, inclusive um que se chamava Jackson, muitos se destacaram no curso mas o soldado Estevão se superava a cada dia, e agora estava liderando os justiceiros.
-Bom dia capitão!
Ele nem ainda tinha levantado a cabeça ainda quando começou a pronunciar meu nome e o fez como sinal de surpresa e felicidade.
-Sargento Miguel.
Levantou-se da cadeira com pressa e caminhou em minha direção com mais perguntas do que eu tinha para responder.
-Sargento, por onde o senhor andou? O que estava fazendo? Está tudo bem com o senhor? Voltou para nos ajudar?
Depois da última pergunta eu fiquei preocupado, então o enterrompi.
-Espere aí. Ajudar os justiceiros? Mas como? Vocês sempre foram a mão da justiça a favor do povo.
-É, parece que o senhor ficou fora do ar mesmo. O senhor lembra quando o soldado Viegas morreu?
Respondi desconfiado, mas positivamente sem gaguejar.
-Sim eu lembro, era um bom soldado.
-Não, não era. Ele fazia parte de uma corja de justiceiros que denegriram a imagem da corporação matando pessoas inocentes por pura diversão e roubara centenas de litros de água que pagaria o salário dos colegas por alguns meses. Mas, ainda bem que o tenente Bastos descobriu tudo, ele disse que foi tratar de assuntos relacionados a associação com o capitão Zenon, quando viu um camaro amarelo saindo em alta velocidade em direção a favela onde o Viegas tinha morrido, ele entrou na casa, mas encontrou o capitão morto junto de sua esposa. Depois o tenente seguiu o caminho do carro que viu saindo e o encontrou, em seguida ele ouviu tiros e uma gritaria que denunciou onde eles estavam, ele tentou dialogar, mas os homens não queriam conversa e saíram atirando, ele não teve escolha e em um violento confronto com os soldados Max e Bruno e o cabo Severo, foi obrigado a matá-los em defesa própria, desmantelando a quadrilha que armou tudo, mas a água nunca foi encontrada. Documentos foram encontrados falando da distribuição da água para criminosos inclusive o Viegas, e demais bandidos de outras alas. Falava também de uma vingança dos bandidos contra senhor. Por isso imaginamos que o seu desaparecimento estivesse relacionado a isso. A morte do amigo Zenon causou uma indignação muito grande. Muitos justiceiros desistiram da associação para trabalhar na fábrica, pois ficaram sem pagamento, principalmente os amigos do tenente Bastos que foi contratado como chefe da segurança. Os poucos que permaneceram, foram porque não conseguiram emprego na fábrica, e aqui pelo menos eles tem comida, bebida e um lugar para dormir. Eu ainda era soldado, quando foi promovido a capitão, graças as recomendações que o senhor fez na minha ficha. O nosso Governo está enfraquecido por causa da ZAX que manda e desmanda, eu estava pensando nisso agora mesmo antes do senhor entrar, isso me dá uma revolta tão grande que eu seria capaz de uma loucura.
-Calma rapaz. Não é assim que se resolve as coisas. Eu também já me senti assim e não fui capaz de resolver muita coisa. Sempre que um mar de problemas quiserem te afogar, não vá direto para a areia, nade paralelo a praia até chegar na areia, dessa forma a correnteza das pessoas ruins na irá te cansar.
Toda aquela mentira estava me embrulhando o estômago, eu queria falar toda a verdade sobre o tenente Bastos, mas ainda não era a hora. Eu precisava de provas que até então não tinha, mas conseguiria a qualquer custo.
Então o capitão começou suas investidas para me segurar mais tempo na associação.
-Sargento o senhor sempre foi o meu herói. Para mim será um prazer trabalhar novamente ao seu lado.
-Calma, calma. Eu não disse que voltaria. Eu só estou aqui para responder algumas perguntas que você já me ajudou a responder.
-Muito bem, já que eu poupei o seu tempo, osenhor pode me ajudar com essa papelada.
-Você é insistente mesmo hein.
-Eu tive uma boa escola. He-he-he-he.
-Não olha pra mim assim, eu não te ensinei a ser incoveniente.
-Mas me ensinou a conquistar os meus sonhos com trabalhalho honesto.
-Isso sim. Ha-ha-ha-ha
-O seu alojamento está do mesmo jeito que o senhor deixou. Pode entrar, tome as chaves.
-Tudo bem, mas só o tempo para te desafogar dessa papelada.
Eu não sabia que tinha tanto papel assim. Somente naquele dia trabalhamos até as 3:00h. Demoramos 3 dias para colocar toda documentação em dia. Revemos os processos das pessoas presas, onde a maioria estava ali porque teria roubado comida para não morrer de fome, liberamos muitos, inclusive com um pouco de água para comprarem comida até arrumarem um emprego, aproveitei para incentivá-los a irem para a ala oeste, porque lá estavam precisando de mão de obra especializada para reconstruir aquele lugar, e me orgulho em dizer que muitos deles se candidataram para serem justiceiros. Nos demais dias que se seguiram, nós treinamos os rapazes que nem sequer sabiam segurar uma arma. Ensinamos como fazer uma abordagem respeitosa e como identificar os verdadeiros bandidos, para não confundirem com pessoas de bem. Todos estavam alegres, porque eram tratados com respeito e dignidade. Aprenderam tão rápido que até eu fiquei surpreso. A mudança foi tão grande que os próprios moradores ajudaram a reformar a associação, e o respeito voltou a prevalecer na ala norte.Como a associação estava ganhando prestígio junto ao povo, muitos jovens se candidataram a serem aprendizes de justiceiro , e eu cuidava dessa parte, pois fazer com que esses jovens saíssem das ruas, das drogas e debaixo do poder dos traficantes era gratificante.
Toda semana eu enviava uma carta pelo motorista de ônibus e quase sempre ele trazia uma também. Eu não conseguia segurar as lágrimas sempre que recebia as vibrantes informações do crescimento da ala oeste. Todos estavam bem, mas o Fred continuava observando tudo de uma forma suspeita. Mas, o único perigo era a ZAX e eles estavam muito preocupados com a construção da New Home.
Miguel pensou que tivesse que se esconder, mas a sua presença foi tão querida, que a imagem dos justiceiros mudou. Mas até quando isso vai durar?
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01 de dezembro de 2012
"O dia em que o chão tremeu"
"Alguns acontecimentos na nossa vida causam verdadeiros terremotos, e nos deixam sem chão."
Depois de 60 dias de trabalho gratificante na ala norte, recebemos uma visita ilustre. Um sofisticado carro preto, com vidros negros como os olhos de um leopardo faminto e rodas cromadas como as garras de um leão defendendo seu território, chegou diante da associação. Desceu um distinto cavalheiro vestindo um terno de linho negro como um grande buraco no universo que suga planetas fazendo-os desaparecer. Seus óculos escuros denotavam seu caráter, e os sapatos pretos mostravam seu caminho de escuridão. Ele pediu para falar com o capitão Estevão, que estava em sua sala. Um dos justiceiros de plantão o levou até onde estava Estevão e o anunciou:
-Com licença capitão. Há uma pessoa aqui que quer falar com o senhor.
-Pode deixar entrar soldado.
Entrou um homem alto como se estivesse acima de todos, com um chapéu negro como se quisesse esconder seus pensamentos.
-Bom dia capitão.
-Bom dia. Mas quem é o senhor mesmo?
-O senhor costuma esquecer fácil dos seus superiores?
-Desculpe senhor, mas...
-Tenente Bastos?
Ele tirou o chapéu e os óculos, então o capitão reconheceu.
-Tenente ! Que prazer. É uma honra tê-lo aqui na nossa humilde associação.
-Não é tão humilde assim. Nem no meu tempo de justiceiro, e olha , foram os melhores tempos da associação, eu vi essa unidade tão limpa e organizada. Parabéns capitão. E a carceragem está cheia de vagabundos?
-Não senhor, não temos nenhum.
-Mas que trabalho fraco é esse que não prende ninguém.
-Desculpe tenente, mas o nosso trabalho principal aqui na associação é disciplinar as pessoas com respeito, para que elas não venham a cometer delitos novamente. E tenho que admitir, nunca tivemos um índice de delitos tão pequeno. As pessoas cometem erros muitas vezes por falta de opção, por isso, fizemos uma parceria com os comerciantes e a cooperativa de prestadores de serviços para arrumar empregos para essas pessoas. Estamos indo muito bem tenente.
-É, posso ver. Mas, posso me sentar capitão? E mais uma coisa, não me chame de tenente. Isso hoje para mim é pejorativo. Eu sou o chefe da segurança da ZAX. Entendeu? Che-fe. Isso sim é cargo de prestígio. por favor me chame de CHEFE.
-Sente-se CHEEEFEEEE.
-Não brinque comigo capitão, eu tenho poder para te enviar para um lugar bem distante daqui, se possível algum lugar que tenha que andar muito para chegar.
-Desculpe chefe. Em que posso servir chefe?
-Eu quero que os justiceiros expulsem, aliás convençam aos moradores da favela da ala norte a saírem de suas casas para a construção de um laborat... quero dizer um armazém para guardar a grande quantidade de utensílios para Hope. Eu comecei a fazer esse trabalho a alguns meses atrás, mas tivemos todos aqueles problemas e a ZAX decidiu esperar um pouco, mas agora que a poeira baixou eles me pediram para vir até aqui para negociar com o senhor esse pequeno trabalho. Que... chegue mais perto por favor. Que irá te render uma boa gratificação. Escute capitão, o senhor ainda tem aquele uno mille da Fiat, ele é 2055 ou 56, estamos em 2078. Então são 23 anos de uso? Estou certo? Enfim eu estou andando de BMW. O senhor poderia ter um carro igualzinho o meu.
-Por favor tenen... isto é chefe. O senhor está tentando me subornar? (Perguntou o capitão indignado com o que acabara de ouvir, ainda sem acreditar.) O Senhor veio até a minha sala me insultar com essa proposta absurda.
-Tudo bem. Além do carro eu consigo também um bom cargo na fábrica para você.
Dessa vez o capitão esqueceu tudo o que tinha ouvido do chefe Bastos e falou de forma enérgica.
-Escute aqui chefe, tenente, o cacete a quatro, como o senhor quiser. Quando eu entrei para os justiceiros, o meu pensamento era de ajudar os pobres diante das injustiças praticadas pelos ricos inconsequentes, e não o contrário.
O chefe também começou a falar sem controle, inclusive com palavras de baixo escalão.
-Escute aqui seu garoto de merda, foi eu quem pôs você aí nesse lugar, e se eu quiser posso tirá-lo também a hora que eu quiser. Você não passa de um empregadinho da ZAX sem reconhecimento, você é apenas um bastardo da ZAX, ou você não sabia que o governo está quebrado, falido e não tem água para pagar até mesmo aqueles que ganham um salário de merda como o seu. Somos funcionários da mesma empresa, a diferença é que EU MANDO NESSA MERDA, EU MANDO EM VOCÊ.
Os olhos do chefe Bastos já estavam vermelhos e a sua boca estava espumando, suas veias do pescoço pareciam que iam estourar a qualquer momento. Nesse momento, entrei pela porta assustado e perguntando:
-O que está acontecendo aqui? Podemos ouvir os gritos lá fora.
Vagarosamente, como se estivesse conhecendo a voz, o chefe Bastos olhou para trás.
E com um olhar de susto e surpresa, eu reconheci o antigo perseguidor e assassino do seu amigo. Por alguns instantes eu relembrei a cena com o amigo Zenon e fiquei sem ação.
Enquanto isso o chefe sacou sua arma e apontou para a minha cabeça ameaçando-me dizendo:
-Dessa vez eu não deixarei que me tirem esse prazer de ver você dando o seu último suspiro.
Disse isso engatilhando a arma e se aprontando para puxar o gatilho enquanto olhava fixo nos meus olhos. Mas o gesto foi interrompido com o cano gelado do revólver do capitão Estevão encostando no seu pescoço junto da ordem "abaixe a arma agora, pois quem manda aqui sou eu", disse o capitão com toda autoridade de um capitão justiceiro, e continuou, por favor sargento pegue a arma do senhor Bastos, porque aqui ele não passa de um cidadão que merece o devido respeito, tire a munição e coloque no seu bonito carro que não me faz falta alguma, nem o seu emprego nem qualquer proposta que ele possa me fazer. E outra coisa, saia da minha frente agora, antes que eu o mande prender por desacato a autoridade. Por favor, retire-se imediatamente, o nosso assunto está encerrado, Por favor sargento, conduza o cavalheiro até o seu carro em segurança.
Ele disse isso porque todos os justiceiros de plantão e residentes já estavam com suas armas apontadas para o chefe Bastos e certamente eles não sabiam quem era ele, por isso poderiam atirar para nos proteger. O chefe pôs seus óculos, arrumou seu chapéu na cabeça e disse calmamente:
-Você irá se arrepender. E você Miguel, é melhor dormir com um olho aberto a partir de hoje.
Virou as costas e saiu. Quando ele já estava no carro, eu entreguei a sua arma dizendo:
- Bastos, os tempos mudaram, mas a verdade nunca muda, e ela virá a tona, mais cedo ou mais tarde.
- Então eu espero que você esteja vivo para prová-la, e deixa eu te dizer: "ela tem gosto de sangue".
Dizendo isso, ele saiu em alta velocidade quase atropelando uma linda jovem, com uma beleza que eu nunca tinha visto antes, mesmo depois dela xingar gritando para o bastos: "seu filho da puta, se não sabe dirigir deixa uma mulher te ensinar". Por alguns instantes eu viajei enquanto aquela mulher vinha na minha direção, e quase não escutei quando ela disse de forma meiga e doce:
-Por favor, e gostaria de falar com o sargento Miguel.
A vida novamente deu uma reviravolta nos planos do nosso herói. Grandes mudanças acontecerão na vida e no coração do sargento Miguel.
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02 de dezembro de 2012
"A paixão nos motiva a enfrentar até a morte"
"Se alguém não tem um motivo pelo qual morra, também não terá um motivo pelo qual viva."
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