A MÚSICA DA MINHA VIDA
Prelúdio (Introdução)
"Amor, a vida passa e não vemos tudo
lembro de quando éramos jovens imortais
e o mundo era o nosso cinema mudo
eu e você , ninguém mais
Hoje eu sei, que tudo na vida faz sentido
Acordei,de um sonho de amor bem resolvido
sem o arrependimento de quem foge
mas com a satisfação de quem vence
Sigo em frente, sigo em frente
Com bravura nos amamos,sem destino nos ligamos
e o fruto desse amor nos deu direção e motivação
hoje somos uma família unidos pelo coração
onde nada nem ninguém pode separar nossa união
Hoje eu sei, que tudo na vida faz sentido
Acordei,de um sonho de amor bem resolvido
sem o arrependimento de quem foge
mas com a satisfação de quem vence
Sigo em frente, sigo em frente
Olhei pela janela e vi pessoas correndo
nos seus olhos o medo de viver perdendo
mais um filho da favela se perdeu
e me pergunto. Porque ele morreu?
Hoje eu sei, que tudo na vida faz sentido
Acordei,de um sonho de amor bem resolvido
sem o arrependimento de quem foge
mas com a satisfação de quem vence
Sigo em frente, sigo em frente.
Há vida, há esperança, existe mudança
Eu acredito em um mundo melhor
onde a paz e o amor fazem um nó
e amarram todos em um só.
Hoje eu sei, que tudo na vida faz sentido
Acordei,de um sonho de amor bem resolvido
sem o arrependimento de quem foge
mas com a satisfação de quem vence
Sigo em frente, sigo em frente"
Sempre que ouço essa música tocada ao som do cavaquinho e do pandeiro, com o som caixa de fósforos sendo xaqualhada pelas sofridas mãos do seu José pintor, que mesmo depois de um dia duro na obra como peão, encontra forças para cantar com um sorriso queimado pelo sol, mas com o coração aquecido por ter ganho o pão de cada dia honestamente. Lembro-me de quando era criança e via meus amigos que deviam carregar livros para a escola levando em suas cinturas armas que defendiam os chefes do tráfico, mas não defendiam suas próprias vidas.
Ainda lembro de Robertinho, que naquele tempo tinha 12 anos de idade e 2 de tráfico, seu aspecto franzino não o intimidava, mas o deixava mais ágil para fugir das investidas da polícia por lugares inimagináveis.
_Fala aí Robertinho. Vai para a escola hoje ?
_Pô cara hoje não, tenho que vigiar os homi. Tem mercadoria chegando hoje e o chefe disse que se agente perde vamo paga com a vida.
_Mas você não vai para a escola há uma semana. Disse eu levantando os ombros pensando como se "pagar com a vida" fosse como uma vida de personagem de vídeo game. Afinal eu só tinha 8 anos de idade.
Minha mãe disse que um dia o governo irá transformar a favela em um lugar seguro e bonito. Eu acredito, porque tudo o que minha mãe diz é verdade. Ela disse que se eu estudasse eu conquistaria uma boa nota na prova e eu estudei, mesmo querendo jogar vídeo game, e ganhei meu primeiro 10,0 em português. Ela dizia:
_Meu filho, meu filho. Estude com amor, porque tudo que é feito com amor fica perfeito. Veja você como é lindo.
Logo depois ela sorria como se lembra-se de algo muito gostoso e fecha os olhos com um suspiro profundo.
Quando a noite chegava e com ela meu pai, fechavamos as janelas e portas, sentávamos à mesa para jantar enquanto víamos o Jornal Nacional. Meu velho sempre cumprimentava os apresentadores com um boa noite e olhava para mim como se estivesse adivinhando o que eu estava pensando
_Porque ele sempre cumprimenta se os apresentadores não podem ouví-lo?
Mas enfim, meu pai era engraçado mesmo e nada poderia fazer com que eu não o adimirasse, No intervalo do noticiário, enquanto esperávamos minha mãe fritar o ovo cantávamos a mesma canção que o senhor José pintor embalava com a caixa de fósforos, e quanto eles se conheceram ela os incentivava a construir uma família que o fizesse se orgulhar de ter feito o melhor.(Deve por isso que eu me lembrava dessa música desde sempre. Ele a cantava enquanto eu estava na barriga da minha mãe.)
_Meu filho, a vida nunca foi fácil para ninguém e com agente não será diferente. Seja honesto, siga seu sonho e transforme seu mundo.
Eu não sabia do que ele estava falando, mas logo descobriria da pior forma.
“Amor, a vida passa e não vemos tudo
lembro de quando éramos jovens imortais
e o mundo era o nosso cinema mudo
eu e você , ninguém mais”
Quando sentávamos à mesa juntos à noite o nosso mundo se transformava em um império de paz, alegria e amor. Meu pai era o rei, minha mãe era a rainha e eu o príncipe. As histórias que meu pai contava eram hipnotizantes, mas a que eu mais gostava era do dia em que eles se conheceram. E quando ele olhava para a minha mãe com aquele ar de apaixonado eu já sabia que ele já iria falar assim:
_Filho, você deve respeitar muito as mulheres, afinal eu nasci quando minha mãe me deu a luz e depois e u nasci de novo quando quando conheci sua mãe. Tudo o que eu era e fazia de ruim deixei para trás porque eu sabia que a minha vida mudaria a partir daquele momento, e nada voltaria a ser como era antes.
_Já sei pai, a vó Silvia não queria que vocês namorassem porque o senhor não tinha emprego e andava com o pessoal do morro.
_Sim, mas só começa aí. Eu nunca falei pra você o que realmente eu fazia com os meus amigos do morro porque eu achava que você poderia ter a curiosidade de saber como funciona e querer conferir pessoalmente.
_Mas o senhor não vive dizendo para ficar longe do pessoal da boca de fumo.
_Sim é verdade, e porque eu tenho certeza que você já aprendeu a lição é que que irei te contar minha história completa. Eu tinha chegado de São Luis do Maranhão e não conhecia quase ninguém, senão seu tio Antônio que tinha vindo a um ano atrás e trabalhava como servente de pedreiro na construção civil.
_O que é construção civel, pai?
_Construção civil, filho. Sãos as obras de prédios, casas, escolas, que você vê cercada de madeira e cheia de homens com uniforme e capacete.
_Uniforme, capacete? Ué pai, quando eu vejo uma obra, os homens estão sujos, sem camisa, as vezes de chinelo de dedo e dificilmente eu vejo caçapete.
_Capacete, filho. É verdade, essas obras sãos as que as pessoas sem carteira de trabalho, experiência e indicação conseguem. Foi dessa forma que eu trabalhei durante meses quando cheguei aqui. Foi um período difícil, faltava dinheiro para pagar os peões e eu fui demitido com apenas 3 meses de trabalho. Tentei arrumar outro trabalho, mas ninguém queria empregar um paraíba cabeça chata para trabalhar. Eles me acusavam de burro e riam da minha forma de falar. Durante dias eu tentei arrumar um trabalho. O dinheiro já estava acabando, quando um amigo me chamou para entregar uma mercadoria no morro do Vidigal, e eu fui para ver como era. Chegando lá, eu vi os sentinelas com fuzis em punho e os olhos arregalados no movimento de entrada e saída de gente, os chefes estavam visitando o morro para alguns acertos de conta. Dentro das vielas estreitas sempre encontrávamos pessoas armadas que acenavam para o meu amigo. Quando chegamos no local da entrega um segurança com quase dois metros de altura e uma arma dourada na mão, bateu no peito do meu amigo e disse:
_Qual é menor? Quê que tu tá querendo aqui?
_Pô chefia. Vim trazê um bagulho aí pro gerente lá do Dona Marta.
_TraBugo. Tem um muleque aqui dizendo que tem um balgulho pra você lá do Dona Marta.
_Filho, quando ele abriu a porta tinha um menino mais ou menos da sua idade, com o rosto ensanguentado e chorando muito. Ele dizia que não iria fazer mais isso e que estava arrependido. O Trabugo, gerente da boca no Alemão, batia como se estivesse batendo em um adulto e gritava com ele dizendo:
_Cê tá maluco menor. Cê tá querendo trazer os poliça aqui pro morro mané. Aqui no morro quem manda sou eu, e eu tô falando pra você agora, se eu te pega roubando aqui, você vai pra vala seu pivete desgraçado. Só não vô te matá porque eu conheço sua mãe e ela pediu em nome de São Jorge , e eu sô devoto do santo guerrero. Mas, se liga, e fala pros seus amiguinhos que se vacilar morre, da próxima vez nem o escudo de São Jorge vai te defender. Vem cá que eu vô te dar a minha bênção.
O Trabugo abraçou o menino assustado e enquanto isso ele puxou uma tesoura do bolso e cortou um pedaço da orelha do menino arrependido que gritou desesperadamente. Agora vaza seu pivete, sem chorar senão vai apanhar mais. Isso é a para você servir de exemplo e todos que virem você saberão que você é um ladrãozinho de merda. Vai, sai,sai, antes que eu mude de idéia e arranque a orelha inteira.
_O menino saiu mancando, sangrando, aterrorizado, com os olhos arregalados cheios de lágrimas, mas não podia chorar. Depois de entregar a mercadoria eu saí dali dizendo que nunca mais voltaria naquele lugar. Mas eu estava enganado. 30 dias se passaram e eu não conseguia emprego, meu irmão não aguentava pagar as contas sozinho e se ele atrasasse o aluguel apanharia, pois barraco que morávamos pertencia ao tráfico. Não tive outra alternativa senão procurar meu amigo e pedir um trampo. No início eu não suportava ver a violência, mas logo me acostumei e tive também que participar de sessões de espancamento para receber dinheiro de maus pagadores.
_Eu achava que era o tal, afinal conhecida a diretoria e sempre fazia o que eles mandavam. Até que um dia, um dos meus amigos foi pego roubando dinheiro da boca. Os chefes ficaram furiosos, porque ele era um dos mais antigos e o que tinha me levado para o “movimento”. Depois de terem batido muito perguntando onde estava a grana, pois eles pensaram que isso estava acontecendo há muito tempo, colocaram uma arma em minha mão dizendo: “já que ele é seu amigo, então acaba com a raça desse vagabundo bem rápido, porque se deixar com a gente… agente vamo acabar com ele bem devagar.” Eu tremi, mirei a arma na cabeça dele, ele levantou a cabeça, olhou para mim como se pedisse: Atira agora. Mas eu não tive coragem. entreguei a arma e virei as costas andando para fora, enquanto ouvia os tiros e os gritos, depois de cinco tiros os gritos cessaram. Eu nunca tinha matado ninguém na minha vida, e não seria agora, principalmente um amigo. Saí dali mal, então fui pro boteco do seu Arlindo, pedi uma cachaça e uma mulher linda me atendeu, enquanto pegava o copo milhões de pensamentos vieram a minha cabeça: Por que essa mulher linda está aqui atendendo bêbados? Por que ela não está em uma linda casa cuidando da sua família? Será que ela é casada? Será que ela gostaria de sair comigo? Por que eu não consigo tirar os olhos dela? Por que ela está olhando tanto para mim? Será que essa é a nona ou décima cachaça? Quer casar comigo? Nesse momento eu pensei falando sem perceber e ela ouviu, sorriu, mas não disse nada. Naqueles momentos ali esqueci totalmente da minha vida pregressa e fiquei bebendo a noite inteira, tentando falar com ela, mas ela não me deu confiança, só me atendia de forma simpática e saía para atender outras pessoas. Sua maneira de olhar, seu jeito de falar, sua maneira de vestir, de se comportar e todos a respeitavam, porque ela sabia se dar ao respeito, conheci o lado meigo da sua mãe. Depois de beber uma garrafa inteira de cachaça eu era o último freguês do boteco e não aguentava mais ficar de pé. O seu Arlindo ia me colocar na calçada para fechar o boteco, mas ela brigou com ele dizendo que isso não se faz com ninguém e disse que iria me ajudar a ir para casa, nesse momento conheci o lado humano da sua mãe. Ela perguntou onde eu morava, me pôs no ombro e me ajudou a caminhar por duas quadras dali, eu não falava nada com nada, mas queria dizer que me arrependia de tudo o que tinha feito até agora e que queria ser um novo homem. Quando chegamos ao meu barraco eu agradeci mais ou menos assim: Ooobligaaaadu. E ela respondeu: Não por isso. Você acha que eu iria desemparar o meu futuro marido? Ela falou isso brincando, lembrando do momento que eu deixei escapar a frase: Quer casar comigo? ela me ajudou a abrir a porta a deitar na cama e saiu sem dizer mais nada. Ainda bem, porque, assim que ela fechou a porta eu saí correndo em direção ao banheiro para vomitar. Passei mal a noite inteira , mas sempre que lembrava do sorriso da sua mãe eu sorria como um bobo e voltava a vomitar. No dia seguinte a ressaca era muito grande, mas fui assim mesmo a diretoria e disse que iria sair, que tinha conhecido uma pessoa e queria arrumar um emprego com carteira assinada para dar um futuro a minha família, eu sabia que se eu desse o exemplo, meus filhos se orgulhariam de mim e poderiam ser alguém na vida. Deixei muito claro que não iria falar nada do que aconteceu ou do que ainda aconteceria no morro, que eles poderiam confiar em mim, pois nunca tinha deixado eles na mão e afinal, eu continuaria morando no morro. Lembro até hoje daquela conversa:
_Como é que é Paulinho? Você quer sair do movimento? Cê tá maluco cara. Você acha que com tudo que você sabe eu vô deixar sair assim, como quem pede para sair de um jogo de futebol. Cê tá maluco seu mané? Aí, Vergalhão e baixinho (baixinho tinha 2,03 metros de altura) dá um corretivo nesse mané pra ele mudar de idéia.
_Eles me bateram por 10 minutos , mas parecia 10 horas. Fiquei com o um corte feio na testa e na boca. O chefe voltou e falou:
_Pera aí gente, era só um corretivo, não é para matar o cara ainda não. Aí Paulinho, mudou de idéia? As pancadas fizeram sua cabeça voltar par o lugar ou acabou de tirar, hahahahahaha. E aí zé ruela?
_Falei com dificuldade, mas com certeza e com muita firmeza: Eu sou sujeito homem, sempre fui e sempre serei, se eu estou falando que irei sair na boa do movimento é porque irei sair assim. Não tenho o interesse de trazer problemas para ninguém, principalmente para mim. A porta da minha casa ficará sempre fechada para não dar guarida para vacilão. Só quero viver a minha vida e nada mais. O Chefe olhou pra mim e disse:
_Eu sei que você é sujeito homem e que muitas vezes você deixou o seu na reta para livrar a minha cara, mas eu nunca deixei ninguém sair na boa. Vamos fazer o seguinte, vire de costas para mim e caminhe em direção da porta, nesses 10 passos não acontecer nada com você então estará livre para viver a sua vida.
_Eu sabia que poderia acontecer qualquer coisa naquele momento, então fechei os olhos e contei os passos: 1,2,3,4,5,6,7,8,9. A minha contagem foi interrompida com um tiro, mas não foi para mim, foi pro chão. Eu olhei para trás e o chefe me disse:
_Esse tiro foi pra você. Foi o meu adeus, mas que as cicatrizes dos ferimentos na testa e na boca não te deixem esquecer da sua promessa, que façam você “pensar” no que você me “disse”. Não me faça arrepender da chance que eu estou te dando. Viva a sua vida e deixe a minha.
_Olhei para ele e não disse nada, apenas balancei a cabeça em sinal de consentimento, voltei-me para porta e finalmente contei 10. Saí por aquela porta vencedor, ferido, mas vivo e com a certeza de o futuro reservava muitas realizações para mim. A primeira coisa que fiz foi comprar flores e levar para a sua mãe no bar. Quando entrei com a cara toda arrebentada e com flores na mão, todos olharam para mim com cara de espanto e o silêncio reinou no salão, eu caminhei até ela, entreguei as flores e disse: “Desde o primeiro instante que te vi soube que você mudaria minha para sempre, e quando perguntei se você queria casar comigo ontem, não foi porque eu estava bêbado de cachaça, foi porque eu estava anestesiado por sua beleza. VOCÊ QUER CASAR COMIGO?”, todos olharam assustados e pensaram que fosse alguma brincadeira, pegadinha ou algum namorado que tivesse aprontado alguma e estava pedindo perdão. Alguém que já tinha bebido muito e não estava entendendo nada gritou : “Viva os noivos!!!” e os demais empolgados pelo bêbado gritaram “VIVA!!!”. ela olhou pra mim e disse :
_Você me conheceu ontem, aliás, você só me viu ontem, e ninguém se paixona tão rápido assim, se bem que eu não paro de pensar em você desde ontem (falou baixinho olhando nos meus olhos), mas isso é uma loucura. Olha só, vamos fazer uma coisa, eu vou pegar essas flores e irei colocá-la na jarra se até que elas murchem e morram você me provar que me ama de verdade, eu me caso com você, se não, nunca mais quero vê-lo aqui (Falou isso torcendo que ele conseguisse voltar a tempo). Tudo bem?
_Nesse momento conheci o lado justo da sua mãe.
_Sem pensar duas vezes concordei e saí dali direto para o barbeiro, cortei o cabelo, fiz a barba, pedi o jornal que estava na barbearia e levei para casa afim de procurar emprego. Já em casa meu irmão perguntou como tinha sido na diretoria e falei pra ele tudo o que tinha acontecido, ele não era de expressar sentimentos, mas claramente ficou aliviado por estar tudo bem comigo. Tratei das feridas e no dia seguinte saí todo arrumadinho para ver os empregos disponíveis. Recebi muitos nãos na cara, mas não desisti porque eu tinha um propósito, o de ser uma pessoa de bem para formar uma família melhor ainda. Voltei para casa arrasado por não ter conseguido nada, mas enquanto passava em frente do boteco do sr. Arlindo olhei para as flores que estavam do lado da refresqueira que ficava no alto e vi que ainda estavam bonitas. Quando cheguei na casa meu irmão ele me disse que agora confiava em mim e que sabia de um emprego que me indicaria para o serviço e eu precisava estar no edifício Avenida Central no centro do Rio às 9:00 h para falar com o sr. José Carlos, o administrador do prédio. Fiquei muito feliz, e pela primeira vez depois que vim para o Rio de Janeiro, liguei para minha mãe para dizer que estava tudo bem comigo, pelo menos era assim que eu me sentia. No dia seguinte fui até o local e horário combinados, conversei com o Sr. Jose, dizendo que tinha conhecido uma mulher pela qual valeria a pena mudar a minha vida e estava pedindo humildemente para mostrar o meu trabalho e provar que eu era digno de confiança. Depois de uma conversa muita amigável e franca o sr. José disse que o emprego era meu e eu deveria retornar em sete dias com todos os documentos em mãos, desesperado eu disse, mas as flores não irão aguentar. Sem entender nada ele perguntou: O que? Foi aí que eu expliquei sobre o trato das flores, entendendo, ele pediu que eu retornasse logo que eu conseguisse os documentos para a admissão. naquele dia tirei a carteira de trabalho, providenciei as fotos e tudo mais que precisava. No dia seguinte estava no escritório com todos os documentos e uma grande vontade de surpreender meu chefe. Depois de tudo acertado peguei o ônibus para o boteco do sr. Arlindo para dar a notícia para sua mãe, de que eu tinha as provas que eu a amava e tinha mudado por causa dela. Quando cheguei no trabalho dela um rapaz muito alterado falava com ela que já estava chorando por causa de suas grosserias, no momento que eu ia me intrometer o seu Arlindo disse que não era para eu me meter, pois era briga de namorados. Desolado eu estava saindo quando ouvi ela dizendo: “quantas vezes eu tenho que dizer que não existe mais nada entre nós? Essa frase fez com que um leão feroz rugisse dentro de mim e sem pensar parti para cima do rapaz dizendo: “Você não está vendo que ela não quer mais nada com você?
_E quem é você? O Cafetão del…
_Interrompi a frase com um soco no nariz que fez descer o sangue, mas o que eu não sabia é que o rapaz era filho do seu Arlindo que tomou as dores e me deu uma paulada nas costas. Sua mãe como uma leoa feroz pulou nas costas o seu patrão arranhando-lhe o rosto, dando-me tempo se pegar na sua mão e sair correndo enquanto ouvíamos os gritos dizendo: ” e nunca mais volte aqui sua ingrata…”. Fomos para a casa do meu irmão, mas ali não podíamos ficar mais. Tínhamos que morar em outro lugar, já que ela morava nos fundos do boteco e estava separada o filho do sr. Arlindo há vários meses. Sua família era de Recife – Pernambuco, mas pra lá ela disse que não voltaria porque o padastro era cruel demais. Só nos restava ir para uma pensão até que conseguíssemos alugar uma casa.
_Ali mesmo no meio da rua eu perguntei: “Você quer se casar comigo?"
“Com bravura nos amamos,sem destino nos ligamos
e o fruto desse amor nos deu direção e motivação
hoje somos uma família unidos pelo coração
onde nada nem ninguém pode separar nossa união”
_A minha maior alegria e realização como homem, foi quando você nasceu. Somente a partir desse momento foi que eu entendi o amor que meus pais, que Deus os tenha, sentiam por mim. É um amor incondicional que te levaria a entrar na frente de uma bala de revólver para defender o filho. A partir daquele momento eu deixei de viver para eu mesmo e comecei a viver para você. Quando eu não permito que você brinque com pessoas que não confio, não é por maldade, mas sim por cuidado.
Estrofe três (A tragédia)
“Olhei pela janela e vi pessoas correndo
nos seus olhos o medo de viver perdendo
mais um filho da favela se perdeu
e me pergunto. Porque ele morreu?”
Naquela noite, como em muitas outras, ouvimos tiros e gritos de pessoas que passavam correndo pelas vielas da comunidade. Nós nunca abrimos a porta nessas situações, porque meu pai era uma pessoa muito honesta e não gostava de se envolver com qualquer tipo de transação contra a lei, dizendo sempre:
_Meu filho, quem anda com morcego dorme de cabeça para baixo. Diga-me com quem andas e eu te direi quem és. Cuidado com os amigos com quem você compartilha a mesma mesa, porque em uma queima de arquivo (mortes encomendadas para silenciar pessoas que sabem de acontecimentos que incriminam pessoas poderosas), quem estiver perto tem que ser morto para não dar com a língua nos dentes (falar o que viu para a polícia ou facção adversária).
Eu entendia muito bem, pois já havia perdido amigos desta forma, além do mais, quase toda noite meu pai falava sobre isso ou sobre o gol roubado que o seu time levou, não havia nenhum gol que não fosse com a mão, impedido, depois de uma falta não marcada, mas era a sua diversão, assistir futebol e dar aulas de como ser técnico.
Estávamos conversando sobre o campeonato carioca e fazendo planos para assistir o jogo do Flamengo contra o Fluminense no Engenhão domingo. Ele é flamenguista doente e eu aprendi com meu avô a torcer para o Fluminense desde quando tinha 5 anos de idade. Era uma conversa intensa sobre quantidade de títulos e personalidades que tinham passado pelos times do coração. Quando inesperadamente, alguém bate na porta de forma desesperada gritando:
_Os homi, os poliças estão atrás de mim, abre, abre, abre.
Meu pai mandou agente fica quieto e não abrir a porta. Nesses anos todos nós nunca abrimos a porta para ninguém. Como ele mesmo disse, “eu não quero me envolver com parada errada”. Quase todas as pessoas que gritavam para entrar não apareciam no dia seguinte para contar o que tinha acontecido e meu pai sabia que quem abrisse seria apagado (morto) por acobertar vacilão (pessoa que comete erros com a polícia ou o tráfico).
Enquanto ouvia os gritos, algo me parecia familiar. Aquela voz, eu acho que é…
_Pai, pai, pai é o Robertinho meu amigo desde quando eu era pequeno. É ele pai, é ele.
Desesperado, insisti que meu pai abrisse a porta e se ele não abrisse eu abriria e comecei a caminhar em direção a ela, certo de que seria a coisa certa a fazer. Meu se levantou e pediu que eu voltasse e fosse para o quarto com minha mãe e não saísse de lá em hipótese alguma.
Respeitei, mas era tarde demais, ele se deixou convencer pela minha ingenuidade e emoção. Aprendi naquele dia que os pais sabem muito mais que nós. Depois que estávamos em segurança ele foi até a porta e perguntou.
_Quem está aí?
_É o Robertinho seu Paulo, pelo amo de Deus deixa eu entra aí, é os homi que tão atrás de mim, as minha bala acabo e o bonde me decho na mão. Por favo, dexa eu entra, eu prometo que vô mudá.
A última frase foi o suficiente para o meu pai abrir a a porta, mas já era tarde, os policiais viram o Robertinho entrando na porta apressado e quando meu pai ia fechar eles empurraram a porta violentamente jogando meu pai no chão e perguntaram:
_Cadê o moleque, cadê o sentinela, cadê o vagabundo?
Minha sala era pequena, por isso não foi difícil achar o Robertinho que chorando muito repetia:
_Eu não quero morrer, eu não quero morrer, deixa não seu Claudio. E a minha mãe, como ela vai fica ?
_Devia ter pensado nisso antes seu vagabundo, e as mães dos policias que vocês mataram, sabe lá quantos você já matou. Tem mais alguém na casa? Tem mais alguém na casa? Tem mais alguém na casa?
_Não tem mais ninguém senhor policial. Respondeu meu pai.
Eu tentei falar para eles não levarem meu pai, mas minha mãe segurou minha até quase eu desmaiar.
Robertinho só chorava enquanto apanhava para dizer onde estavam os outros comparsas. E depois de ter urinado nas calças e de ter o seu rosto desfigurado de tanto apanhar ele foi levado para fora, quando um dos policiais perguntou ao chefe da operação:
_Chefe, o que que agente faz com o amigo do bandido.
_Deixa ele, é só um pobre coitado e não vai contar nada mesmo, eu conheço esse tipo de gente que vive de cabeça baixa.
E quando o intransigente policial saiu pela porta, veio-lhe uma preocupação: “se eu não fizer nada os demais moradores irão acobertar os bandidos, ele vai servir de exemplo.”
_Aí, pega o coroa e trás aqui pra fora.
Pegaram meu pai pelo braço, e sem resistir foi levado para frente do boteco onde muitas vezes ele se divertiu cantando a música da minha vida, jogaram-no no chão junto do Robertinho que não aguentava mais ficar de pé e gritaram para todo mundo ouvir:
_Isso é o que acontece com bandido.
Deram um tiro em um joelho do Robertinho que apenas gemeu, pois não conseguia mais gritar, outro tiro no outro joelho, outros dois tiros, um em cada mão e por fim um na testa.
_E isso é o que acontece com quem ajuda bandido.
Colocaram meu pai de joelhos e em silêncio foi executado com um tiro na cabeça. Durante alguns minutos um silêncio profundo reinou na favela, e somente depois que eles foram embora que nós saímos debaixo da cama e corremos para socorrer meu pai que já não respirava mais.
Logo os vizinhos vieram acudir minha mãe que agarrada ao corpo do meu pai chorava e gritava como se estivesse morrendo também.
_Meus Deus! Porque ele? Ele era honesto.
“Há vida, há esperança, existe mudança
Eu acredito em um mundo melhor
onde a paz e o amor fazem um nó
e amarram todos em um só”
Hoje eu sigo o exemplo do meu pai, que me ensinou honestidade e determinação.
Trabalho na ong do morro
Conhece a namorada
Muda de economia para música na faculdade
Sucesso internacional da ong
Experiencias de crianças que foram salvas do tráfico
Atentado ou assalto de pessoa conhecida
Seu filho nasce
Ele ensina os passos do pai pela música
Poslúdio (A história que não foi escrita e inspira multidões)
Vidas de crianças transformadas pelo seu trabalho.
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