terça-feira, 23 de outubro de 2012

É mais fácil ser vítima de morte súbita do que conseguir um taxi.

Estou no centro do Rio de Janeiro às 17:48 de uma sexta-feira que antecede um final de semana prolongado, ou seja, estou muito encrencado, e para completar, meu carro está na concessionária que fica em São Cristóvão para mais uma revisão gratuita que tenho que pagar R$198,00. Já até sei o que você está pensando.
_Se é de graça, por que ele tem que pagar R$198,00?
Foi a mesma pergunta que fiz quando o "consultor técnico" anunciou o assalto com direito a nota fiscal e tudo. Mas, ele foi até convincente quando fez aquela cara de torcedor do Divino Futebol clube e disse que eu teria que pagar óleo, filtro de óleo e a repimboca da parafuzeta (parafuzeta é com "z" ou com "s". Ah! Não importa, não existe mesmo)
Você acha pouco? O setor de entrega de carros fecha às 18:30 e já fiz sinal até para uma ambulância que passou por aqui correndo como se fosse socorrer alguém, pois nenhum taxi para. Já são 18:02 e estou ficando desesperado, quando derrepente aparece "do além um taxi brilhante com um anjo ao volante", que nada, era um santana 98 amarelinho como uma laranja madura, ou o que sobrou dela. Entrei sem perguntar se tinha parado para mim, pois não queria correr o risco, e logo começei a falar:
_Boa noite meu chefe.
E ele respondeu com um sorriso pouco comum em humanos e com ar angelical
_Boa noite jovem.
_ O senhor pode me levar para o Pavilhão de São Cristóvão, portão 5. Preciso pegar meu carro na concessionária em frente, pois pretendo viajar para Arraial do cabo ainda essa noite.
Falei ainda preocupado se ele tinha parado para eu mesmo ou outra pessoa.
Ele respondeu com uma voz mansa e suave:
_ Tenho certeza que o jovem fará uma viajem inesquecível esta noite.
Fiquei tranquilizado por alguns momentos, mas o trânsito parou novamente e voltei a ficar desesperado, mas agora o meu coração acelerou como nunca havia acontecido, mas não me preocupei, afinal eu já tinha sentido essa dor outras vezes e acabava quando tomava um analgésico qualquer. Aproveitei para fuxicar na internet através do celular e uma crônica me chamou a atenção, ela falava sobre morte súbita, um assunto pouco tratado na sociedade, mas certamente o meu amigo taxista já teria ouvido falar, então perguntei:
_Amigo, como você se chama?
_Miguel. Miguel Arcanjo.
Continuei perguntando, pensando que já tinha ouvido falar aquele nome em algum lugar.
_Senhor Miguel .
_O Senhor está no céu. Disse ele sorrindo.
_O senhor, isto é, você já viu algum caso de morte súbita?
_Sim muitas vezes.
Pensei por alguns instantes. Ele deve ser taxista há muitos anos.
Ele respondeu sem que eu dissese uma palavra sequer:
_Transporto pessoas há muitos anos.
Fiquei assustado, mas cético que sou, pensei : Ele já é velho, então já deve ter visto muita coisa.
Ele continuou falando:
_Você sabia que a síndrome da morte súbita somente nos Estados Unidos, mata mais de 300.000 indivíduos por ano e são computados como morte cardíaca súbita. Em muitos casos,  a causa base da doença é difícil de ser identificada. Entretanto, os dados genéticos dos últimos quinze anos têm identificado as causas base destas doenças que estão frequentemente associadas a cardiopatias (doenças do coração).
Para um taxista ele é muito inteligente mesmo, pensei sem pronunciar palavra alguma.
Novamente ele respondeu, agora com um sorriso sarcástico:
_Sou velho e taxista, mas não sou burro.
Permaneci incrédulo, afinal o tempo estava passando e o trânsito estava lento, mas eu já conseguia avistar uma ambulância parada há uns 50 metros. Esse era o motivo do engarrafamento.
_ O senhor,isto é, você pode andar um pouco mais rápido Miguel? Perguntei.
_Não se perocupe vamos voar já, já.
Respondeu enquanto atendia um telefone celular antigo, tipo tijolão, com um toque parecido com aquela música: "Ainda bem, eu vou morar no céu..." Ele falava assim:
_Sim Senhor, estou quase chegando, até logo.
_Desculpe, mas com quem o senhor estava falando? Perguntei curioso.
_Senhor não, Miguel, Miguel Arcanjo.Eu estava falando com o Chefe. Respondeu-me olhando para a ambulância que já estava ao lado do taxi.
Curioso, abri a janela e perguntei aos paramédicos com faces transtornadas.
_O que aconteceu?
E eles responderam:
_Morte súbita.
Se eu cheguei a tempo de pegar o carro?
Não sei, acordei no céu.
(Por favor, não leve um susto como o personagem, isso pode ser fatal. Mas viva intensamente cada segundo)


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