segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Um dia nas Olimpíadas, uma vida inteira depois


Foto:AFP (UOL Notícias em 04-08-2012)

     Em uma olimpíada o mundo inteiro espera algo de você - o espetáculo, mas somos seres humanos que vivem na realidade. Os artistas têm tudo arranjado por seus produtores e contra-regras, os assistentes estão ali para prover a segurança do artista que trabalha para uma empresa. Mas o atleta está só nessa empreitada, e se ela ou ele cair e se machucar será tudo debitado da sua conta.
     É manhã de sábado em Londres - Inglaterra. No Estádio Olímpico o sol tímido tenta sorrir para Fabiana Murer que busca expressões de afeição em um estádio lotado de gringos que rasgam seu coração e corpo esperando em espetáculo sobre-humano para saciar sua sede de justificar o tempo e dinheiro gastos na compra do ingresso para o show, contra 12 pessoas de sua família que estavam ali pela pessoa e não pela atleta, ou pela pessoa-atleta. 
     O maior adversário não são os atletas rivais que treinaram horas a fio, que deixaram famílias, que mantiveram alimentação rígida, que ouviram broncas de treinadores e carregavam um país inteiro nas costas com um peso extra da história no esporte. Também não era a torcida contra, que educadamente fuzilava os competidores , todos com chances de medalha, com olhares de desdém e o pensamento de que alguma coisa poderia dar errado, o vento talvez. Era uma força superior, incontrolável, impiedosa e sem sentimentos, o vento foi o grande vilão, esse sim foi o adversário invencível.
     Quatro metros e cinquenta centímetros seria o ponto de partida. Ela olha para frente, respira organizadamente para controlar o nervosismo, olha para o sarrafo, olha para o colchão, calcula as passadas, a velocidade, o impulso, mira atentamente o local de apoio da vara, corre , eeeeeeeee, peraí esse vento tá esquisito, mas ela vai assim mesmo, eeeeeee, fracasso. Ela não desiste. Volta, olha, respira, sarrafo, colchão, passada, velocidade, impulso, mira, corre, eeeeeee. Yeeeessssss, vitória.
     Mas não acabou, ela está em décimo terceiro lugar, assim não se classifica. Agora são quatro metros e cinquenta e cinco. Tudo de novo,olha, respira, vento,sarrafo, colchão, passada,vento, velocidade, impulso, mira, vento, corre, eeeeeee. Fracassa. O coração bate mais forte. Tenta a segunda vez, vento,olha, vento,respira, vento,sarrafo, vento, colchão, vento, passada, vento, velocidade, vento,impulso, vento,mira, vento, corre, eeeeeee. Fracasso outra vez. Tenta a terceira vez, vento, vento, vento,vento, vento,vento,vento,vento, eeeee, não tenta mais, desiste.
     Somos seres humanos, e por instinto nos auto preservamos, mas cada um preserva o que lhe é mais importante, os espectadores que estavam no estádio preservaram o seu dinheiro, exigindo um espetáculo, os telespectadores preservaram seu tempo diante da televisão, exigindo entretenimento, os patrocinadores preservam sua imagem estampada no uniforme do atleta, exigindo publicidade, mas a atleta e seus familiares preservam a vida, pois sem ela não existe espetáculo, entretenimento, publicidade, nem um lindo sorriso pela vitória conquistada. Valeu Fabiana, desculpe pelo atraso.

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